Saturday, August 20, 2016

Voltei e cheguei a Carachi... ao mesmo tempo...

Voltei há quase 3 semanas... Estive quase dois meses fora, se é que "estar fora" se aplica. Como se decide "estar fora" entre o local onde fica o coração e o local onde vivemos? Como se decide "estar fora" quando deixamos de ter o preto e o branco e nos movimentamos entre matizes de cinzento? Como se decide "estar fora" quando parece que estamos sempre fora, ou sempre dentro, ou sempre algures?

Voltei há quase 3 semanas a Carachi. Para trás ficaram quase dois meses de Portugal. Repartidos entre a serenidade familiar na agora centenária cidade de Abrantes; entre o calor das novas amizades lavradas em Tomar; entre a doçura de rostos das boas gentes do Porto; entre a vivacidade e o bulício da minha querida Lisboa. Foram quase dois meses em que queria sentir-me dentro, sabendo que parte de mim já estava fora. E quando chegasse "lá fora" uma parte ficaria ali dentro.

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, mas foi como se chegasse de novo. É tudo diferente. Parti de Carachi, no começo de Junho, como Professor, apenas para regressar como Coordenador, nos primeiros dias de Agosto. Não fui o único a partir. Três colegas seguiram para novos "foras", novos rumos. E três novos rostos ocuparão o seu lugar. Uma chegará hoje...

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, a essa Carachi onde nunca chovera, e logo começou a chover. Como se os céus me quisessem dizer que não há repetições; que não cheguei para um remake mas para um novo episódio. Estou no mesmo espaço, mas num momento diferente. E por isso se é certo que voltei a Carachi, não é menos certo que só cheguei a este momento agora.

Voltei ao mesmo quarto, no segundo andar, no corredor direito, com o número 9 na porta. Mas o número 8, que albergava um desses colegas, repousa agora num silêncio incomum. Num silêncio que torna tudo isto novo, apesar de tudo permanecer semelhante no número 9. Nada permanece igual, quando somos feito de movimento e de emoções. Eu sei que o igual é uma ilusão, criada apenas para dar conforto. Mas por vezes o ilusório conforto é tudo o que basta...

Voltei ao mesmo quarto, no segundo andar, no corredor direito, com o nímero 9 na porta. Mas trouxe comigo novos rituais. Chá com mel do norte do Paquistão aos sábados e café, que trouxe de Portugal, aos domingos. Trouxe para o mesmo quarto, rotinas novas. A serenidade da leitura ou o ócio constante entre a poltrona amarela e a cadeira preta, substituídas por corridas, e agachamentos e flexões e sei lá mais o quê!

Voltei e cheguei a Carachi, ao mesmo tempo. Pronto para experimentar o novo, neste espaço que já conheço mas que me reserva o desconhecido. Voltei e cheguei para recomeçar, mas não para repetir. E apesar da incerteza ser a única certeza sinto-me confortado. Se fosse para remakes ficava na centenária Abrantes num loop de carinho familiar; ou deixava-me pelo Porto num carrousel de aventuras; ou quedava-me por Lisboa...

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, mas não vi em busca do que já foi mas do que poderá ainda ser.  Porque sei que não sabendo ao certo onde é o meu "estar fora", acabo por estar sempre dentro; por estar sempre num espaço que é meu e não é meu, porque o espaço a ninguém pertence. Voltei em busca de mais peças para entender o puzzle que sou. E amanhã começa mais uma semana...


Sunday, May 01, 2016

Hoje recordo... E depois celebraremos...

O dia nasceu sem sol. Nuvens brancas no céu e um vento quente agita as folhas das árvores e aquece os corpos. O sol não nasceu mas está calor. Ainda não é uma da tarde e já passámos os 35ºC (37ºC diz o termómetro). Tentei desligar o ar condicionado por uns instantes, mas logo grossas gotas de suor contrariaram os meus intentos.

O ano passado estávamos juntos. Há dois anos não. Ainda falho em entender porque decidimos dar ao dia da Mãe a volatilidade do primeiro domingo de Maio, enquanto o dia do Pai se fixa no estável 19 de Abril. Não há muito tempo, já mo disseste antes, celebrávamos o dia da Mãe a 8 de Dezembro. Não que a data mude a distância, mas gosto de pensar em outras coisas.

Ia querer acordar mais cedo. Ir até à cozinha. Dar de comer ao Bob, para ele se distrair e depois preparar o pequeno-almoço. Ia tentar fazer o mínimo barulho. Colocar tudo na sala de jantar; como quem preparar um banquete para uma Imperatriz. Ia colocar mais coisas na mesa do que as que conseguimos comer, porque o importante era estarem lá... como eu não estou hoje...

Ia ter alguma coisa combinada com a Catarina e com a Inês. Talvez flores, túlipas se as encontrássemos bonitas. E por certo um postal. Ia já ter pensado em algo bonito para escrever, sabendo que as palavras são pálidas e fracas para te agradecer tanta coisa. Para transformar em obrigado os silêncios de cumplicidade e as horas de paciência.

Talvez fossemos almoçar fora. E porque não? É verdade que não és mais Mãe hoje, do que foste ontem, ou do que serás amanhã, mas é hoje que te celebramos enquanto Mãe. Há dois meses atrás celebrámos a Mulher. E por isso repito, talvez fossemos almoçar fora, ao Aquavital, com vista para o  Tejo que insiste em não me levar as Saudades.

Mas desta vez não posso. Voltei a estar longe. Mais longe do que em 2014, quando andava pela Anatólia Turca. Agora estou nos domínios do Império Mugal. No Sul da Ásia. No Paquistão. Agora acordo sozinho, envolto no desconfortável abraço de um calor persistente; em vez de acordar para o teu abraço suave. Mas não esqueço que é o teu dia.

E é em ti que me inspiro hoje. É em ti que penso enquanto passo mais um fim-de-semana a trabalhar, entre aulas de compensação, reuniões e avaliação de trabalhos. É em ti que me revejo, enquanto tento batalhar por um futuro melhor. Não tenho três filhos, mas tenho cinco princesas e quero poder dar a todas algo melhor. E sei agora, um pouco, daquilo que passaste. E sozinha. E em silêncio.

Não te vou abraçar, mas isso não importa. Porque os abraços não se esgotam e em Junho dou-te um, ou dois, ou quinze. E enquanto choramos os dois (sabemos que vai acontecer) dou-te mais outro abraço. E depois conto-te tudo e depois quero ouvir-te contar tudo. E depois preparo-te o pequeno-almoço. E depois faremos o que não fizemos hoje.

E enquanto o depois não chega, enquanto a distância não se encurta, enquanto as folhas do calendário não anunciam Junho, apenas tenho uma coisa a dizer: Feliz Dia da Mãe. Beijinhos!

Monday, March 28, 2016

Lahore, pensamentos no dia seguinte

Lahore, capital da província de Punjab, sofreu ontem um dos mais terríveis atentados da sua história. No final do dia de Domingo de Páscoa, um bombista suicida rebentou-se num dos parques mais populares da cidade. Para já contam-se 72 mortos, mas com quase 300 feridos o número deverá subir nos próximos dias.

O ataque de ontem transmite, na sua forma mais dantesca e preversa, através da morte de crianças e mães, uma série de mensagens que importa entender. O ataque, reivindicado pelo Tehreek-i-Taliban Pakistan Jamaatul Ahrar (um subgrupo Talibã radicado no Paquistão), é uma prova de que os Talibã conseguem operar onde e quando quiserem no Paquistão...

Nos últimos meses gerou-se um clima de confiança de que os Talibãs estariam limitados a um raio de acção próximo da fronteira com o Afeganistão. O ataque na Universidade de Bacha Khan (Charsadda) a 20 Janeiro, ou a explosão do autocarro governamental em Peshawar a 7 de Março pareciam confirmar a incapacidade dos Talibãs actuarem longe da fronteira. A tragédia de ontem em Lahore destrói esta narrativa.

O ataque é também um claro sinal da intolerância dos Talibãs Paquistaneses para com a tolerância inter-religiosa do actual governo. O actual governo do Paquistão, este ano, na mesma semana, concedeu feriado à minoria Hindu (Holi, na quinta-feira) e à minoria Cristã (Domingo de Páscoa) e com isso arriscava-se a comprementar a visão fundamentalista de quem entende a Religião apenas e só em tom bélico: Nós contra Eles!

O ataque é um claro "murro simbólico" contra o Primeiro-Ministro Nawaz Sharif que nasceu em Lahore, e que disse recentemente que a província de Punjab estaria brevemente livre do fundamentalismo dos Talibãs e do Daesh. Uma mensagem audaciosa, do homem que reforçou os poderes dos Rangers e do Exército para estabilizar, com imenso sucesso, a muito instável Carachi.

O ataque insere-se, ainda, no momento em que ocorriam uma série de manisfestações pró-Mumtaz Qadri em Islamabad (onde mais de 2000 homens permanecem, ainda hoje, sentados frente ao Parlamento) e em Rawalpindi. Os protestos de domingo terão reunido mais de 10.000 manifestantes em Rawalpindi e quase 25.000 em Islamabad. Uma estranha demonstração de apoio, para com um assassino...

Pequena pausa explicativa: Mumtaz Qadri, fundamentalista islâmico, foi executado, por ordem judicial a 29 de Fevereiro (dia escolhido de propósito para evitar celebrações anuais, por causa do aniversário da sua morte!) após ter assassinado o Governador Salman Taseer, de quem era guarda-costas. Isto porque o Governador em causa defendera Asia Bibi, mulher Cristã, num caso em que a mesma era acusada injustamente de blasfémia.

Mas se o ataque tem dimensões simbólicas importantes, também tem os seus fracassos. O ataque que tinha por alvo famílias cristãs, acabou por vitimar essencialmente famílias muçulmanas. O ataque que pretendia criar apenas medo e aprofundar divisões; levou a uma extraordinária onda da solidariedade com centenas a doarem sangue e a prestarem auxílo. Nas redes sociais corre mesmo a frase de que "há sangue muçulmano e cristão misturado em cada transfusão".

O ataque levou o Primeiro-Ministro a dotar os Rangers de maior poder; ao estilo do que aconteceu em Carachi. Ora os Rangers, em parceria com o Exército, já mostraram ter capacidade de estabilizar uma megapólis de 24 milhões como Carachi, pelo que Lahore, que conta com o beneplácito do Primeiro-Ministro, deverá aguardar por melhores dias.

O ataque, para além da raiva, do choque e dor, causou ainda uma curiosa onda de indignação na emergente classe média Paquistanesa, que não consegue entender a lógica do bombista suicida se ter feito rebentar na zona dos baloiços. Mesmo que o alvo preferencial fossem as crianças cristãs, na zona dos baloiços não existem religiões pelo que foi aposta errada...

É certo que o ataque de ontem em Lahore levou a ajustes nas rotinas de hoje por todo o país. Ao contrário do que normalmente acontece, hoje o Fidalgo foi revistado ao entrar na Faculdade onde lecciona... Isto apesar de entrar na mesma, com carro e motorista da Faculdade. E de dormir dentro do campus, num edifício da Faculdade. Mas esses pequenos a pessoas tolera. A dor, o horror e o choque levarão mais tempo a ajustar...

Wednesday, March 23, 2016

Primeiro apontamento sobre o horror de Bruxelas

Já contava com o chorrilho de opiniões insufladas, exageradas, desinformadas veiculadas nas redes sociais. Já contava com os status cheio de bandeiras, de cartoons com lágrimas, de mensagens que não adiantam nem atrasam. Já contava com o festival feito em torno da dor, de uma Europa que teima em esquecer-se...

Vamos por partes. O ataque em Bruxelas foi uma supresa apenas para os leigos e os menos informados. Bruxelas, capital informal da União Europeia e da OTAN, era um óbvio alvo. De resto, em Novembro de 2015, em várias conversas que tive com gente que me questionava sobre "próximos alvos" disse, e repito, que Bruxelas, Berlim e Roma são alvos simbólicos que estarão na mira das células adormecidas e dos lobos solitários do Daesh.

O ataque em Bruxelas permanece no domínio do simbólico, tal como acontecera com o duplo atentado de Novembro em Paris e em Beirut (muita gente parece ter-se esquecido de Beirut). Os múltiplos atentados em  Ancara e Istambul são relevantes, claro, mas pertencem a uma ordem diferente de motivações e justificações.

O ataque em Bruxelas é um ataque ao "poder político" do Ocidente Europeu; após um ataque ao "centro civilizacional" (Paris) e ao "legado ocidental" fora da geografia do Ocidente (Beirut). É um ataque natural de quem quer retroceder no Tempo, sem entender que o retrocesso no Tempo é em si mesmo uma impossibilidade.

Sztompka, fala deste tipo de dinâmicas (em que existe um louvar do Passado, sem existir um real entendimento desse mesmo Passado) como sendo "incompetência civilizacional". Creio que estamos todos de acordo: o Daesh é muita coisa, menos civilizacionalmente competente. Nem entenderam ainda que o auge do Mundo Islâmico (que para nós se traduziu no Al-Andalus) coincide com o momento de maior abertura desse mesmo Mundo Islâmico!

O ataque em Bruxelas é também um aviso subliminar ao milhares de muçulmanos que fogem do conflito que lavra no Iraque e na Síria. Se esses mesmos muçulmanos pensam que a Europa da União proverá segurança e estabilidade política, que pensem duas vezes...  E por isso faz fraca figura quem culpa os refugiados, pelos atentados mais recentes em solo europeu. É mais fácil culpar o Outro, mas culpar o Outro pouco resolve o problema.

O ataque em Bruxelas revelou, uma vez mais, que a ideia de um continente-fortaleza em permanente clima de segurança é uma ilusão, sempre foi. A Segunda Guerra dos Balcãs (1991-2001), o Massacre de Munique (1972), e as Duas Guerras Mundiais tendem a ser "esquecidas", levando muito boa gente ao catastrofismo provinciano de um alegado apocalipse em marcha.

Não caminhamos para nada "pior", apenas relembramos (após o rebentar das bombas e o contar dos corpos) o que quisemos esquecer: que a segurança é ilusória e, paradoxo curioso, insegura. Precisamos reaprender a viver, não tenho dúvidas disso; mas precisamos, ainda mais, de reaprender a relembrar. E precisamos também de menos politiquês corretinho...

A vitimização do mundo pós-colonial não serve nem às ex-colónias, nem aos ex-colonizadores. As primeiras presas num discurso de lamentação cíclica, que impede entender o Passado como um todo e avançar para o Presente, porque o importante é manter o Agora em que se aponta o dedo e se fala de esperança, mas não se age sobre a mesma. 

As segundas, porque presas à auto-culpabilização, se vêm enredadas na incapacidade de agir. Nada pode ser feito, porque tudo viola sensibilidades. Isto serve quem mesmo? Ninguém! O Ocidente precisa (se não o fez já!) assumir culpa pelos seus erros, mas precisa também de encontrar mecanismos de acção-reacção que evitem um perigoso entorpecimento social e apatia comunitária.

Os atentados de Bruxelas apontam também para o fracasso da guetização étnico-religiosa, chamada de modo erróneo de Multiculturalismo, que se vive na França, Bélgica, Alemanha e não só. Não é por acaso que os mesmos países que o relatório da Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas louvou pelas políticas de assimilação e integração multicultural (a saber Portugal, Espanha e Noruega) sejam também os menos expostos a actos desta natureza.

Não estou esquecido dos ataques em Madrid, em 2004, mas também não estou esquecido que falávamos na altura de outros actores (al-Qaeda) com agendas diferenciadas. O Daesh quer, primeiro que tudo, mostrar o fracasso do Ocidente e devolver ao Ocidente o medo, que gera insegurança, que gera intolerância, que gera militância, que gerará uma nova onda de violência pró-Daesh. A Al-Qaeda queria vingar-se do que fizeramos no Iraque...

Para alguém, como eu, que vive e trabalha (pela segunda vez) num país de maioria muçulmana (primeiro Turquia e agora Paquistão) foi curioso notar duas coisas: 1.) a maioria dos muçulmanos de imediato condenou os ataques e tentou expressar solidariedade para com o Europeu, que de súbito olhava o computador com lágrimas nos olhos; 2.) a maioria dos habitantes de Carachi reagiu de modo brando, sem exageros folclóricos, porque estão acostumados à ideia de que a segurança não é segura.

Os ataques de Bruxelas revelam também que a Europa não precisa de mais integração, mas sim de mais autonomia e de maior investimento em mecanismos de segurança. Se quisessemos mesmo mais integração os ataques de Paris em Novembro de 2015 ou os ataques de ontem em Bruxelas levariam à activação do artigo 222 do Tratado de Lisboa, ou do Artigo 5º da OTAN. E nada disso aconteceu!

É preciso devolver soberania aos Estados-membros da Europa da União; é preciso acabar com os mitos da segurança como um dado adquirido e voltar a apostar no investimento, inteligente e sem exageros, nos Exércitos nacionais e nas forças policiais. De pouco serve ter muita maquineta, quando não temos os recursos humanos necessários! É preciso debater se devemos diluir a politização de um espaço que se construiu sobre premissas económicas.

Para o Fidalgo poderíamos começar por dissolver o Parlamento Europeu, entidade que causa mais entropia do que benesses, e reduzir a Europa da União a um organismo de cooperação inter-estatal de cariz económico-financeiro; uma espécie de retorno à Europa pré-Tratado de Roma. A maior integração parece levar a uma maior descoordenação e isso em nada ajudará a evitar que actos como o de ontem se repitam.

De pouco importa dizer que tudo faremos para tudo ficar igual, porque isso é uma impossibilidade lógica. Não há hashtag ou bandeirinha na foto de perfil que mude isso! O que temos que fazer é perceber como os ataques de Bruxelas podem mudar muita coisa e, sem pressas e sem balelas, descortinar o que queremos que mude, como queremos que mude e porque queremos que mude. Afinal de contas para "segurar a segurança" é preciso entender a insegurança...

Saturday, March 19, 2016

Em vez de celebrar Carlos, ser Carlos!

Estamos a ganhar estranhos hábitos, por força de forças que nos escapam. Tornamos em rotina o que, muitas vezes, não controlamos apenas para termos uma remota sensação de segurança. Mas a segurança não aplaca a saudade, nem pára o pensamento, nem seca a lágrima. E o estranho hábito prossegue.

19/03/14. Kirikkale, Turquia. Já tinha passado outros dias do Pai longe, mas nunca tão longe. Já os tinha passado em Abrantes, enquanto estavas por Lisboa, e quase que chegámos a inverter papéis, mas nunca à distância de dois voos. O dia foi estranho. Deixei que o trabalho me enchesse de ânimo, e entre aulas e correcção de trabalhos lá fui passando as horas.

Não deixei de me lembrar de que aquele era o teu dia. Todos os dias são o teu dia, e o da mãe, e os das manas e o de um rol de gente que importa. Mas o 19 de Março é um bocadinho mais teu, do que de todos os outros, e por isso tenho-te sempre mais presente. E mesmo longe, nas terras de Osman e Suleimão, tive presente o Sultão que me trouxe ao mundo. E o dia fez-se...

19/03/15. Espoo, Finlândia. Passei da quente Anatólia, para a gélida Escandinávia, mas pouco mais mudou. Continuei longe de ti, agora apenas a um voo de distância, mas demasiado longe para poder celebrar contigo; para poder saborear qualquer das iguarias que cozinhas com tanto afecto; para poder beber uma ginginha caseira e ver o pôr-de-sol em Abrantes...

O dia foi, uma vez mais, recheado de trabalho e de horas em frente a um computador... Mas não há montanha de tarefas que apague a ausência de quem queremos celebrar, quando os queremos celebrar. Voltei a ter que te celebrar de longe. Não perdi o orgulho de ser teu Filho, mas a distância torna mais complicado poder mostrá-lo. Porque há coisas, sei-o agora, que nem as palavras conseguem expressar.

19/03/16. Carachi, Paquistão. Do frio do Norte da Europa, para o calor do Sul da Ásia. Fiquei ainda mais longe e no entanto não tenho mais saudade. Porque a saudade não cresce com os quilómetros, mas sim com as ausências. E por isso é igual a distante Carachi ou a mais próxima Roma. Estaria na mesma longe, sem poder dar-te um abraço e talvez um postal com o emblema do teu Benfica.

E apesar de tudo hoje sorrio.  Porque muito do que conquistei, muito do que fiz para chegar até aqui fi-lo por, sendo Tiago, ser Carlos. Aprendi muito coisa a observar-te, a estudar como por vezes resolves os teus problemas e fui deixando que a aprendizagem se tornasse parte de mim.

E por isso celebrei-te não apenas em pensamentos e palavras bonitas mas em gestos. Celebrei-te sendo Carlos em acções e gestos. E a vitória que hoje alcancei, mais logo conto tudo no habitual email, não foi minha mas sim tua.

Não sei onde estarei no 19/03/17 mas esteja em Lagos, Nigéria ou em Ierevan, Arménia, sei que estando sozinho e longe não estou só nem tão distante. Porque para celebrar Carlos, o pai, preciso apenas de ser como Carlos, o pai. Não é apenas orgulho que tenho em ti, é amor. E amor copia-se até ao infinito!

FELIZ DIA DO PAI


Wednesday, March 02, 2016

Celebro-te e a um longe que se faz perto

Está a transformar-se num péssimo hábito este de passar o teu dia, longe de ti. Está a transformar-se numa péssima rotina esta idiotice de estar longe, quando devia estar perto. Já lá vão três dias teus, passados em terras de outrém, para além de outros tantos passados em terras lusas mas longe. Certas repetições não deviam poder acontecer...

Acordei pelas 06h35, com a voz da Melodie Gardot, e com o quarto envolto em trevas. O sol de Carachi nascia na rua, por detrás das persianas. Não tive pressas. Conheço tão bem as minhas rotinas matinais e os meus tempos e gestos e no entanto estranhei esta manhã. Quase que a combati. Quase que quis ficar ali imóvel, com o tempo congelado e num espaço sem espaço. Mas o impossível não foi possível. Levantei-me!

Programei, na noite anterior, a moldura electrónica para ter apenas uma foto em exibição permanente. E enquanto me sorrias alegre, sabendo eu que dormes a mais de 10.000km de distância, sorri também. O sorriso manteve-se. E o silêncio também. Fiz o que sempre faço todas as manhãs, sem novidade e sem surpresa e no entanto senti-me insatisfeito. Queria mais algo...

Mordisquei um dos chocolates que chegaram no dia anterior, enquanto esperava pelo pequeno-almoço na companhia de Catarina de Médicis. Ironia deliciosa, tu fazes anos e eu, aqui longe, é que recebo presentes. Sou em quem está longe? Ou és tu? O que importa? Estamos longe outra vez... Isso é que importa. E é isso que me insatisfaz, penso enquanto Catarina corre, ao sabor dos grafemas, para salvar o Navarra.

O pequeno-almoço veio. O carro veio. As aulas vieram. Os alunos vieram. O almoço veio. Os emails vieram. Os documentos vieram. O funcionário do piso veio. Os colegas vieram. Mais alunos vieram. Mais emails vieram. Mais documentos vieram. O lanche veio. Ainda mais documentos vieram. Tudo veio. A distância já estava, a saudade também, mas a melancolia do longe veio.  E tu não!

E agora sorrio. Penso em como estando longe, eu de ti e tu de mim, te consigo ter perto. De como nas pequeninas coisas e nos grandes feitos te vejo. De como consigo ouvir a tua voz, nos momentos de maior silêncio. De como consigo sentir-se afagar-me os cabelos, quando apenas a solidão me faz companhia. De como consigo que estejas perto, apesar dos mais de 10.000km que nos separam.

Já te celebrei de tantas maneiras e todas merecidas. Da mãe presente; à guerreira persistente; à Rainha elegante; à conselheira paciente... Mas este ano celebro apenas o estares sempre aqui, o fazeres-te perto estando longe. O termos, há 29 anos, sete meses e três dias, um laço feito de silêncio, partilha e amor mais sólido que diamante ou grafeno. O termos isto que não tem nome, mas tem forma.

Peço desculpa por não estar perto; mas sei que sabes porque estou longe. Peço desculpa por te preocupar todos os dias, sabendo que ficas alerta sempre que ouves notícias de países acabados em "estão". Peço desculpa por falhar, outra e outra e outra vez, à celebração do teu dia. Falho em corpo, mas não esqueço! Peço desculpa por, a esta altura, já te ter feito chorar.  Por estares, tenho a certeza, de lenço em punho e olhos a brilhar cheio de cristais aquosos. [Pausa] Podes sorrir!

Celebro o muito que ainda tens para alcançar; o muito que ainda tens para nos surpreender; o muito que ainda tens por fazer. E mesmo longe cantar-te-ei os parabéns e terei tanto ou mais orgulho por poder dizer: é a minha mãe! E quem sabe, em 2017, depois de Lisboa, de Kirikkale, de Espoo e de Carachi se não celebro o teu dia em Abrantes, ao teu lado. Mas mesmo que não celebre ao teu lado, sei que não estarei longe. Nunca estarei longe.

PARABÉNS MÃE!

Beijinhos,
Filho, Tiago

Monday, February 22, 2016

Hyderabad, ou ida a uma Kalkhora sem esperança!

Uma nota ao leitor: Num país como o Paquistão é sempre arriscado ter expectativas, porque as mesmas raramente se confirmam sendo ora goradas, ora ultrapassadas pela realidade. É talvez melhor esperar pouco, para retirar tudo de cada experiência. Ora se nem sempre chove em Tóquio quando uma borboleta bate as asas em  Nova Iorque, também, por vezes, o que era melhor, desejável, ideal, deixa de o ser...

A frenética Carachi que nunca dorme, mas que precisava e muito de fazer uma ou outra sesta, ainda me surpreende pela sua diversidade. Uma cidade que traduz, em não tão pequena escala, o que se passa no subcontinente em termos de composição étnica, religiosa, social, cultural e política. Carachi é como que uma manta de retalhos, tecida por bordadeiras com distintas vontades.

Carachi, capital da província de Sindh e cidade mais populosa de todo o Paquistão com (estima-se) quase 24 milhões de habitantes, não terá dado pela ausência temporária de sete dos seus habitantes não-nativos. Seguimos então os sete, em dois carros brancos, pouco passava das 15 horas, com destino a Hyderabad.

Antes da partida, a curiosidade do turista e o interesse do investigador lá descobriram que partiria rumo à antiga capital de Kalkhora (dinastia Sindh semi-autónoma do século XVIII) e antiga capital da província de Sindh, antes de Carachi arrebatar o título. Hyderabad dizem os censos de 1998, é a sexta cidade mais populosa do país e a segunda maior cidade de Sindh, logo a seguir a Carachi. E sem querer, os censos e Kalkhora teceram em mim expectativas...

Levámos menos de duas horas e meia a percorrer uma estrada com quase mais buracos do que pavimento; um trajecto que poderia fazer parte do próximo Paris-Dacar, até porque a distinta prova já não parte de Paris e já não chega a Dacar... Menos de duas horas e meia rodeado por uma paisagem inóspita, quase lunar, e pelo silêncio gritante de casas abandonadas pelo Homem e pelo Tempo.

Chegámos a Hyderabad bem perto das 18 horas com um programa bem definido: chá em casa de um dos sete que partiram de Carachi. Um jovem de Hyderabad que não queria perder a oportunidade de mostrar ao Professor Português a sua hospitalidade. Veio o chá, e os chocolates e os biscoitos de manteiga e a água. Veio tudo, menos a mãe, relegada à sombra do não-reconhecimento no seu próprio lar. Senti alguma vergonha, mas ali pouco mais podia fazer.

Segundo item na agenda: ver um pouco de Hyderabad.  Preferia ter ido em busca daquela mãe que não vi, do que ter saído para ver o que vi. Enquanto me falavam de como era simpático o centro da cidade os olhos dos meus seis companheiros de viagem ignoravam o que os meus olhos não conseguiam esquecer. Crianças, tantas crianças, que brincavam no meio de gigantescas pilhas de lixo.

Crianças, tantas crianças, que se entretinham com sacos de plástico e com pneus já sem outro uso que não a imaginação. Crianças, tantas crianças, com o rosto com mais tristeza do que esperança. E nós preocupados em encontrarmos um lugar onde comer algo, ou beber um café. E nós, a quem a infância não fora roubada preocupados com o agora, enquanto passávamos por quem não tivera o ontem.

Não pense o leitor que vou apontar o dedo ao Ocidente, ao colonizador, à Religião, ao que quer que seja. De pouco adianta apontar dedos, quando os olhos veêm crianças, tantas crianças, brincar entre Gizés de lixo e Coliseus de pedra e poeira. De pouco servem as culpas, num sítio que não perdeu apenas o esplendor da História mas também a sua esperança...

E, depois de falhada a tentativa de um café decente e de comer um wrap, lá seguimos para o terceiro objectivo: assistir ao casamento para o qual foramos convidados. Para mim era algo mais, ia assistir, pela primeira vez, a um casamento xiita no Sul da Ásia. Não foi o primeiro casamento segregacionista a que assisti (participei em dois ou três na Turquia), mas foi talvez aquele em que mais senti o peso da segregação.

Homens e noivo num salão e mulheres e noiva noutro salão numa noite que celebra a união do casal pareceu-me estranho. Como se celebra a união de dois, que passam a ser um, quando os dois não se encontram num só espaço? Como se celebra um novo momento na vida, onde passamos a ser um com duas vozes, se as duas vozes não se encontram unas? Como?

E enquanto o meu cérebro processava dúvidas, algo interessante se revelou perante os meus olhos. Enquanto, na Lusitânia, festejamos a união com quem conhece os que se unem, ali, onde a união se celebra de modo dividido, festeja-se a união com quem quer festejar a união. Abrem-se as portas à comunidade que precisa apenas de conhecer o noivo, o irmão do noivo, o primo do noivo, o amigo do primo do tio do noivo...

E aos poucos deixei de lado as questões, as expectativas tecidas de uma Kalkhora que já não existe, e apenas fruí o que acontecia. E veio a comida (saborosa, diga-se!), e a bebida (escolhendo livremente entre água, ice-tea, coca-cola e 7up) e a música. Vieram conversas em urdu, sindhi, punjabi e pashto que não entendi mas que encheram o salão. E quando a fome se saciou a festa cessou e logo regressámos a Carachi...

E enquanto percorriamos a estrada, coberta pelo vulto denso da noite, mas sentindo a trepidação de cada buraco e de cada elevação num pavimento regulamente irregular, deixei que o sono viesse. Mas ele não veio, talvez perdido no mesmo sítio onde ficou a esperança de Kalkhora. A mesma que não vi no rosto das crianças, de tantas crianças...