Monday, November 14, 2016

Chisinau e Sófia vão a votos... Bucareste transpira. Moscovo sorri!

O domingo ficou marcado por duas eleições Presidenciais com vários pontos em comum: 1.) ambas ocorreram no Leste Europeu; 2.) ambas disputavam a segunda volta; 3.) ambas tinham como oponentes um homem e uma mulher; 4.) ambas discutiam, mais do que outra coisa, esferas de influência para os próximos anos.

Na Moldova, o estado mais pobre do continente Europeu e um dos membros signatários da Parceria de Leste, o candidato pró-Rússia, Igor Dodon (Partido Socialista da Moldova) conseguiu 52.2% superando os pouco mais de 47% de votos que alcançara na primeira volta. Maia Sandu (Partido Acção e Solidariedade) ficou-se pelos 47.8%.

Igor Dodon, que defende uma aproximação da Moldova à Federação da Rússia, conseguiu capitalizar no descontentamento dos eleitores para com os partidos pró-UE. E mesmo o facto de Maia Sandu ser considerada uma política honesta, pelo seu não envolvimento nos múltiplos escândalos político-financeiros que têm agitado a República da Moldova, não chegou para travar Dodon.

A taxa de participação na Moldova ficou ligeiramente acima dos 53%, um valor demasiado baixo para um país que elegia pela primeira vez o Presidente por voto popular directo. Nos últimos 16 anos coube ao Parlamento (instituição dominante no regime parlamentar Moldovar) a função de indigitar o Presidente da República.

Na Bulgária, que aderiu à União Europeia em 2007 juntamente com a Roménia (que vai a votos em Dezembro!), com o escrutínio quase terminado, com 99.3% dos votos contados e validados, a vitória recaiu sobre Rumen Radev, candidato apoiado pelo Partido Socialista da Bulgária. Radev conquistou mais de 59% dos votos (59.4%), contra os 36.2% de Tsetska Tsacheva, candidata do partido no poder (GERB).

Ramen Radev, como Dodon, defende uma linha de aproximação político-diplomática entre Sófia e Moscovo sendo certo que Sófia passará a defender o fim das sanções da UE a Moscovo (vêm aí dias complicados para Juncker&Co.!), será menos aguerrida contra as insurgências no Donbass e poderá mesmo formalizar o reconhecimento da anexação da Crimeia.

Resultado imediato da eleição de Radev foi a queda do governo de coligação suportado pelo GERB, que controla as rédeas do poder em Sófia desde Julho de 2009. Eleições antecipadas não acontecerão antes de Março de 2017, uma vez que o Presidente cessante (Rosen Plevneliev) não tem já poder para dissolver a actual legislatura e Radev só o poderá fazer após tomar o cargo a 22 de Janeiro de 2017. Uma vez dissolvido o Parlamento as eleições terão lugar em 60 dias.

Apesar da corrupção ter sido tema dominante, uma onda de nostalgia pela URSS e uma vontade de aproximação ao gigante a Leste num momento de transformação e incerteza no seio da União Europeia terão facilitado a vida de Radev. Esta eleição é tanto uma derrota da UE, que tem resistido a uma restruturação que passe pela devolução de soberania aos estados, como uma vitória de Moscovo que tem sabido capitalizar nas fragilidades de Bruxelas.

A dupla eleição presidencial, na Bulgária e na Moldova, mostrou também um curioso paralelismo com as candidaturas pró-UE a serem encabeçadas por duas mulheres: Sandu (Acção e Solidariedade, Moldova) e Tsacheva (GERB, Bulgária); ao passo que as candidaturas pró-Moscovo foram encabeçadas por dois homens do, ou apoiados pelo, Partido Socialista: Dodon (Moldova) e Radev (Bulgária).

A dupla eleição presidencial irá, seguramente, ter reflexos nos desenvolvimentos políticos na vizinha Roménia, que se prepara para ir a votos, para escolher uma nova composição parlamentar, a 11 de Dezembro. É pouco expectável que a Bulgária saia da UE ou a Moldova desista da Parceria de Leste, mas é altamente provável que ambas esfriem o seu euro-entusiasmo e re-aqueçam as relações com Moscovo.

Thursday, November 10, 2016

O primeiro olhar sobre a peculiar eleição presidencial nos EUA

Tenho andado ausente do comentário político e peço desculpas por isso. As novas funções como Coordenador de Licenciatura acabaram por me "roubar" mais tempo do que previsto, e a estas somaram-se funções honoríficas numa série de eventos locais... Mas, aos poucos, tentarei retomar o contacto com a actualidade.

E nada melhor do que re-começar com o tema quente do momento: a eleição de Donald Trump como 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Começo por responder a uma questão: em quem votaria? Em ninguém. Como monárquico convicto que sou, não entendo a utilidade da selecção do Chefe de Estado pelo voto popular. Se fosse norte-americano iria descarregar o voto em branco.

Poucos analistas, eu incluído, levaram a sério a candidatura de Donald Trump, quando este anunciou que estava na corrida para a nomeação do Partido Republicano. Em sala de aula cheguei mesmo a dizer aos alunos de Introdução à Ciência Política que as hipóteses de Trump, comparado com Rubio ou Bush, eram mínimas. Estava errado...

Olhando com atenção e curiosidade para o decurso das primárias, em ambos os partidos, comecei a mudar a minha posição. Só os tolos não se adaptam aos factos! Quando regressei a Carachi, em Agosto, assumi por mais do que uma vez que Trump tinha imensas hipóteses de vencer. E não me foquei na parolice insuflada do "discurso do ódio" e do "eleitor-burro". Foquei-me em factos!

Ignorar, como os media e muitos analistas fizeram, o simples facto de Trump ter tido umas primárias sobejamente mais complicadas (à partida) mas, curiosamente, menos dramáticas (à chegada) e de Clinton ter tido o inverso foi algo que me recusei a fazer. É certo que a máquina partidária Republicana reagiu, e muito, contra Trump. Mas é igualmente certo que a Convenção não foi tensa ou dramática como se previa.

Já Hillary Clinton, com a máquina partidária do seu lado (lembremo-nos que a esmagadora maioria dos super-delegados quase automaticamente declararam votar Clinton!) e com os media enamorados por ela, chegou à Convenção dependente de Bernie Sanders. No final do dia foi Sanders, aliás, quem desbloqueou a Convenção, num gesto de extrema lealdade para com o partido Democrata.

As primárias ficaram marcadas pelo tema do "anti-sistema", mas a máquina mediática preferiu focar-se nas gaffes e lapsos linguísticos de Donald Trump. Não querendo escamotear algumas das suas propostas, ficou a impressão de uma ênfase exagerada nos seus traços negativos, quando do outro lado da mesa estava uma política experimentada com provas dadas... e algumas delas com maus resultados ou más práticas.

As primárias falaram alto contra o tal sistema e a hostilização do partido Republicano a Trump, acabou por cristalizar a imagem do guerreiro-solitário que diz o que quer, quando quer, como quer, porque não deve nada ao partido. No outro lado da mesa, com mais tacto e menos verborreia, Sanders tentava fazer o mesmo. Mas Clinton tinha, porque tinha, que ser nomeada e candidata. Afinal já falhara umas eleições primárias em 2008...

É aqui, para mim, que Trump constrói a sua vitória. Soube cavalgar a onda de descontentamento e usar as múltiplas adversidades em sua benesse. Não querendo fazer de Trump um paladino destas eleições, parece-me erróneo ignorar o facto dos jornalistas, analistas políticos, políticos de várias sensibilidades, artistas e académicos terem gozado (literal e metaforicamente!) com Trump. E agora, com o ceptro nas mãos, Trump pode rir-se de todos.

Trump até pode ter dito muita algaraviada e patacoada, mas não tentou focar a sua eleição nos seus órgãos genitais como Clinton acabou por fazer, em muitas instâncias. Disse muito impropério mas a sua agenda era menos oca, mesmo que a possamos rotular de perigosa ou turculenta, do que se tentou "vender".

Clinton mostrou, especialmente nos debates, um lado arrogante, frio, pouco empático e elitista que afastou o eleitorado e que justifica, e muito, a vitória Republicana em todas as frentes. Numa análise fria à linguagem de ambos, nos debates, nenhum sai a ganhar. Mas ao menos Trump assumiu a sua saloice, enquanto Clinton tentava disfarçar a coisa... mas mal...

Os erros de Clinton, na governação, também não ajudaram. Parece-me extraordinário que muito comentador e comentadeiro tenha tentado ignorar, de propósito, as amizades com a Árabia Saudita, os erros graves na Líbia, ou a linguagem confrontacional com Moscovo. O foco era sempre o putativo muro no México, que Trump de resto desmistificou na sua viagem... ao México.

Achei ainda mais curioso, para não dizer ridículo, ter que ler e ouvir muito Europeu criticar a ideia de Trump de expulsar emigrantes ilegais dos EUA (Trump tem pouco, se algum, interesse em expulsar/deportar as comunidades emigrantes legalizadas e a residir nos EUA!), quando muitos desses mesmos Europeus defendem quotas apertadas para a entrada de emigrantes sírios, iraquianos e afegãos na Europa. Um pouco de bom-senso não custa nada pessoas!

O sentimento anti-sistema não é sequer uma novidade. É certo que o UKIP elegeu apenas um deputado nas últimas legislativas de Maio de 2015, mas no voto nacional surgiu como a terceira maior força com 12.6% dos votos. É aliás esse o elemento que tantos comentadores e analistas ignoraram nas suas previsões do referendo ao BREXIT. O voto no UKIP mostrava já descontentamento, mas a arrogância do "sistema" não quis tirar ilações e lá veio "surpresa"...

As eleições na Polónia, em Outubro de 2015, e que resultaram no tal eixo democrático iliberal entre Varsóvia e Budapeste também davam sinais de que havia mudança no ar. E os bons resultados da direita populista na Finlândia, na Suécia, na Dinamarca e na Alemanha (as últimas eleições em Berlim mostraram isso mesmo!) também davam a entender que ou o sistema se reforma, ou o eleitor elegerá quem promete demolir o sistema. Reformar ou implodir!

Para os mais argutos, até os eventos no Brasil com o impeachment de Dilma Rousseff podem ser entendidos como um sinal curioso. Somando a isto, a eleição de Duterte nas Filipinas e as transformações políticas na China comunista e na Turquia pós-golpe; eventos que criaram o cenário político internacional propício ao discurso de Trump. Não ignoro que Trump se apoiou no medo e nas fobias da população, mas que falou também sobre problemas com os quais o eleitor se identificou.

Hillary Clinton sobrestimou a agenda vaginista (desculpem-me a linguagem!) que queria colocar uma mulher, apenas por ser a Primeira Mulher Presidente nos EUA (porque por esse mundo fora, temos tantos exemplos de mulheres no poder!). Não me entenda mal o leitor, acho que as mulheres são tão talentosas quanto os homens em qualquer função, mas não acho que a ênfase nos órgãos genitais seja razão para eleger pessoa A ou B. Clinton não percebeu que a mesma agenda falhara na ONU...

Quem também falhou e muito (e de propósito!) foram as sondagens. Todas as sondagens davam Clinton como 45ª Presidente dos EUA e no final todas elas falharam. O eleitor bofeteou as sondagens e, tenho para mim, deu cartão vermelho ao (quase-inexistente!) legado Obama. Porque no final do dia as altas promessas de Barack Obama ficaram maioritariamente por cumprir. Pergunto-me se a Academia Sueca aceitará a devolução do Nobel entregue em 2009...

O mais curioso de tudo foram as reacções pós-voto, que me fizeram lembrar a azia da direita "pafista" em Portugal, no final das última legislativas. Em Portugal quiseram deturpar o sistema transformando a noção de "quem tem maioria" na noção de "quem chega primeiro". Peço imensas desculpas se ofendo alguém mas é mais idiota e burro quem acha que o eleitorado é burro e idiota só porque o eleitorado não confirmou uma certa visão de mundo.

Em Democracia não temos que gostar do resultado pós-eleitoral, mas temos que o respeitar. Pedidos de repetição do escrutínio, de limitação do direito ao voto e outras tantas parvoíces são apenas um atestado de ignorância a quem os faz. E se o sistema eleitoral nos EUA é injusto, e tenho em crer que será esse o caso, a sua reformulação terá que ser feita a montante do ciclo eleitoral e não a jusante deste. Mudar as regras agora seria imoral, pouco ético e simplesmente cretino.

Igualmente desnecessário é o discurso do apocalipse e do fim do mundo. Parem lá com essas tontices das datas e das efemérides forçadas. No final do dia Trump, como qualquer outro Presidente, terá uma série de limitações constitucionais ao seu poder e dependerá (em larga escala!) da sua equipa governativa. E, para os mais distraídos, Trump foi apenas eleito Presidente nos e dos EUA...

(Amanhã, se for preciso, escreverei sobre o impacto pós-eleitoral de Trump, mas sem alarmismos e catastrofismos bacocos)

Monday, October 24, 2016

De como medir progressos sem contar os segundos...

Tornou-se rotina. Dia sim, dia não calço as sapatilhas, visto as calças desportivas e escolho uma das t-shirts oferecidas pela Inês para o propósito em causa. Coloco os auriculares e escolho a pasta "Running" e lá saio para a rua. Começo sempre com uma pequena caminhada pela colónia onde resido e depois lá me lanço na corrida.

Corro. Pausa. Ando. Corro de novo. Nova pausa. Nova caminhada. Um ciclo que se repete, agora, quatro vezes e que me permite, agora, correr mais de sete minutos, quando em meados de Agosto nem minuto e meio fazia. Não escondo o orgulho que sinto do progresso feito. E assumo que por vezes corro apenas porque penso nisso: como tenho progredido.

Desde que comecei a minha rotina que os guardas, que asseguram a tranquilidade e segurança da colónia, se têm mostrado curiosos. Assumo que deva ser curioso, se não mesmo engraçado, ver um académico estrangeiro a arfar no final da sua corrida; deve ter a sua piada ver um doutor a escorrer suor pelo rosto e com os óculos, por vezes, embaciados.

Eles, os guardas que nos guardam na colónia, refastelam-se nas cadeiras espalhadas no exterior, algumas com aspecto de virem da era colonial, enquanto eu me "torturo" a correr voltinhas em redor da residência ao som de música ora inglesa, ora portuguesa, ora russa, ora espanhola, ora turca, ora francesa e, de quando em vez, até música paquistanesa.

Confesso que ao início tal visão me causava algum desconforto, mas aos poucos notei que não havia no olhar dos guardas jocosidade mas antes curiosidade. Confesso que ao início apetecia-me dizer-lhes que eles, com estômagos a crescer de semana para semana, deviam andar a correr, mas noto agora que não o fazem porque não têm porque o fazer. Porque se cansariam se recebem o mesmo sentadinhos na cadeira almofadada?

E vou correndo. Deixo sempre que a música me preencha os sentidos para não pensar nestas coisas. O que importa é cumprir as metas auto-impostas. E deixar que o resto seja o resto. E lá vou correndo e parando. E no dia seguinte fico pelo quarto, com o número nove gravado na porta. E no dia depois do dia seguinte volto a correr.

Hoje numa dessas pausas, na terceira de quatro que fiz, a rotina quebrou-se. Quando parei, arfando e transpirando em bica, o guarda que vigia as traseiras da residência levantou-se, fez um respeitoso mas atabalhoado sinal de continência (filho de militar sabe destas coisas!) e apontou para a cadeira dele. Ou para as cadeiras: duas! Iguais. Uma para ele e uma para mim. Acedi ao convite, que as pernas pediam descanso.

Num instante percebemos que ele falava tão pouco inglês quanto eu falo urdu, mas isso não impediu a comunicação. Lá lhe perguntei como estava (Aap kaise hain?) a que ele respondeu: "Bem" (Good!). Apontei para o crachá para perguntar o nome dele. Hussain. A idade foi mais complicado, mas lá percebi que tem 36 anos. E do nada saiu-lhe um You very good man (Você, é um homem muito bom) com aquele sotaque típico dos falantes de urdu.

Sorri. Agradeci o cumprimento com um Shukriya (Obrigado). Estendi-lhe a mão para um aperto de mão e fui saudado por um aperto de mão e nova vénia. E depois ele gesticulou para explicar que sabia que só me voltaria a ver na quarta-feira e que eu teria a cadeira em espera. Agradeci de novo, desta feita em português, que o cansaço por vezes prega as suas partidas.

E segui para o quarto. Onde ainda sorrio. Tenho corrido sem querer chegar a qualquer destino, sem querer ir a parte alguma e contudo cheguei aqui: à atenção de quem me vigia. Tenho corrido para mim e por mim, sem perceber que corro também por ele, ou por eles. Tenho corrido para transformar o corpo, mas acabei por transformar o espaço. E na quarta-feira voltarei a calçar as sapatilhas...


Monday, October 17, 2016

São trinta e dois anos ou celebrando A Catarina

Já andavas pelos trintas anos quando, este ano, entrei no comboio. E, como sempre, a partir de hoje levas dois números de avanço... Até ao próximo 28 de Julho em que recupero a desvantagem, que logo aumentará no próximo 17 de Outubro. Ciclo que não me importo de repetir ad eternum...

Não é o primeiro aniversário que escrevo de longe. É o quarto. Seguido. Dois na Turquia. E dois no Paquistão. Já antes tivera aniversários em que estava em Lisboa, mas logo seguia para Abrantes para te dar aquele beijinho de parabéns. Mas estando longe-longe posso apenas tirar contentamento de escrever umas linhas, enquanto lágrimas marotas escapam-me dos olhos...

São trinta e dois anos que celebram as idas à arvore de natal, para saquear o chocolate pendurado nos ramos verdes do pinheiro e encher as pratas com areia.  De como corávamos quando o Natal terminava e na altura de "dividir" o chocolate acabávamos, literalmente, com um punhado de areia nas mãos. E, de quando em vez, com um castigo.

São trinta e dois anos que celebram os raides para espreitar presentes e depois, na noite de 24 para 25 de Dezembro, fingir espanto e surpresa com o que saía dos embrulhos. São trinta e dois anos que celebram horas a fazer de contas que trabalhávamos em empresas e andávamos em viagens por todo o lado. Nisso a realidade acabou por imitar a nossa imaginação e lá vou viajando aqui e ali!

São trinta e dois anos que celebram horas de maternidade-fraternal inculdada em ti pela vida e pelas circunstâncias; e nunca falhaste nesses deveres que tinhas que cumprir e para os quais não ouve tempo para aulas ou treinos. São trinta e dois anos que celebram ralhetes, raspanetes, risadas, gargalhadas e até bifes voadores...

São trinta e dois anos que celebram a menina sonhadora que se transformou na mulher trabalhadora. Ainda com o brilho dos sonhos nesses olhos cor de amêndoa, encaixilhados pela tez branca e pelo cabelo ora mais ruivo, ora mais loiro, ora mais moreno. São trinta e dois anos de muita coisa vivida que não caberá nestas palavras e que não deve caber. Há coisas que pertencem ao silêncio.

São trinta anos (e não, não me enganei!) de admiração, de fascínio, de amor. De olhar para um modelo a seguir no que toca a preserverança, elegância e espírito de luta. Muitas vezes me perguntam como é que aguento fazer tanta coisa e tantas vezes gostava de poder responder: isso é o meu lado Catarina. Não iriam entender, eu sei, mas gostava de responder isso.

São trinta anos (continuo sem estar errado!) a roubar pedacinhos de ti, que tento colar em mim de modo atabalhoado. Se há coisa complicada de se copiar, ser Catarina é certamente uma delas. Acabamos sempre por fazer algo torpe, insuficiente, desvirtuado, sem graça... E por isso quando te copio, assumo logo a qualidade fraquinha da cópia. Mas hoje celebro o original. Não celebro ser Catarina, celebro A Catarina.

São trinta e dois anos que hoje se celebram e num pulinho serão trinta e três e quem sabe interromperei este ciclo de celebrações longe. Quem sabe se não estarei por perto, pronto a cantar os parabéns e dar-te o beijinho na bochecha... e, porque não, desafiar-te para rapinar mais pratas numa qualquer árvore de natal por perto. MUITOS PARABÉNS!


Sunday, September 25, 2016

Carta de um irmão distante... ou os 13 aninhos da Maria!

Olá maninha,

Tudo bem por aí? Por aqui o sol ainda brilha. Estão 32º graus na rua e o vento vai fazendo bailar as verdes folhas das árvores que vejo da minha janela. No meu quarto estão 25º graus e harmoniosas composições de Dvorak vão enchendo o meu ouvido. 13 aninhos Maria! Uma idade bonita, para uma princesa ainda mais bonita.

Estás agora naquele momento em que tudo muda e em que parece que és apenas o somatório de muitas negações. Ainda não és adolescente, já não és criança e ainda não és adulta. Não falta muito para que tenhas mais perguntas do que respostas e para que comecem a pedir mais e mais e mais... Escolhe isto; decide aquilo; resolvo aqueloutro.

13 aninhos Maria! Estás naquele momento em que começas a querer experimentar autonomia. Em que queres deixar de ser apenas a irmã ou a filha, para passares a ser a Maria. 13 aninhos Maria! E um mundo de oportunidades por explorar, com esse teu sorriso simpático e com esse olhar muito teu de quem vê o mundo com outras cores.

13 aninhos Maria! O que mais aprecio em ti é a naturalidade da tua originalidade. Essa capacidade muito tua de descobrir beleza no ordinário; de transformar a rotina em extraordinário; de transformar em gargalhada o enfado. Podes até estar na fase das múltiplas negações, mas és em ti criadora de ternura e de universos fantásticos.

Seria de esperar que te escrevesse uma carta com conselhos. Que te falasse dos meus 13 anos e extraísse lições e ilações, mas não o faço. Os 13 anos que hoje celebramos são teus e não meus. O caminho que hoje começa é também teu, que o meu segue outro percurso. 13 aninhos Maria! E mesmo de longe acordei com um sorriso no rosto. O sorriso de quem tem a felicidade de te ter por irmã.

13 aninhos Maria! E quando soprares as velas e pedires um, dois, quatro, sete ou treze desejos, deseja apenas poderes ser Maria. Porque não precisas de mais nada para ser feliz. São 13 aninhos Maria! E amanhã, com os presentes já abertos e já sem mensagens no facebook por ler, irei continuar a celebrar-te aqui de longe. Porque a distância não diminui o amor e a saudade apenas aumenta o carinho!

Feliz aniversário Maria!

Tuesday, September 13, 2016

Um dia a solo ou de como o Kurban Bayramı se tornou Eid al-Adha...

É a quarta vez que estou num país de maioria islâmica aquando do Festival do Sacrifício, ou Eid al-Adha na versão árabe e Kurban Bayramı na versão turca. Durante vários dias os muçulmanos sacrificam cabras, ovelhas, vacas ou camelos (uma novidade que descobri em Carachi) como forma de limpar os pecados e de agradar o Divino.

O Festival do Sacríficio é também uma recriação simbólica do momento em que Abraão se preparava para sacrificar o filho Ismael (ou Isaac [cristão e muçulmanos têm leituras diferentes do filho que foi oferecido em sacrifício]) e o anjo Gabriel, que vira provada a fé de Abraão, interrompe o profeta e faz aparecer um cordeiro que Abraão sacrifíca no lugar do filho...

O Festival do Sacrifício tem ainda uma terceira valência: a caridade. Após o sacrifício do animal, a carne do mesmo deve ser dividida não apenas entre parentes e amigos, mas de modo a que a mesma chegue aos mais pobres que, no resto do ano, não têm acesso à mesma. Limpam-se os pecados, honra-se a memória do patriarca dos monoteísmos e pratica-se caridade...

O Eid al-Adha ou Kurban Bayramı é um dos festivais religiosos muçulmanos mais importantes e, naturalmente, um momento para as famílias se reunirem. O ano passado partilhei desse espírito em casa de uma colega. No ano anterior passara os dias do Festival em casa de amigos, na agora tão distante Kırıkkale. E no ano anterior também me quedara pela Anatólia turca.

São quatro Festivais do Sacrifício seguidos e nunca, como hoje, me senti tão deslocado. Acordei cedo, com a residência num silêncio denso apenas rasgado pelo canto de alguns pássaros empoleirados na minha janela. Desci para o pequeno-almoço. Cruzei-me com um dos rapazes que assegura o funcionamento da residência. Disse-lhe Eid Mubarak ("Que seja um festival santo") e dei-lhe uma nota verde, de 500 rupias paquistanesas. Sorriu-me.

Esperei enquanto preparava a mesa do pequeno-almoço. Na mão direita, no dedo anelar, um anel com pedra negra que comprei na Turquia. Na mão esquerda um livro que trouxe de Portugal, sobre o Portugal do Império; o Portugal de um tempo que já foi, em que o exótico inundava Lisboa. E agora sou eu quem se deixa submergir no exótico, mas Lisboa está tão longe...

Leio sem pressas, a vida de Maria da Esperança (também ela fora do seu mundo!) enquanto almejo pelo pequeno-almoço. A omelete simples e a paratha (pão achatado típico do Sul da Ásia) chegam à mesa. O meu chá de jasmim chega pouco depois. E as compotas de maçã, de framboesa e de morango chegam em último. Não uso nenhuma. Prefiro um pouco de manteiga, antes de comer a omelete. Sozinho.

Termino o pequeno-almoço sem pressas. Sei que tenho colegas no quarto 2 e no quarto 5, mas ninguém quis sair do seu micro-cosmo. Opções... E quedo-me eu, e a Maria da Esperança, no salão da residência. Recusei dois convites para desfrutar da companhia de quem agora se fecha nos seus quartos, qual pérola dentro da ostra. Mas não lamento... O lamento fica para quando errar...

O dia passa sem pressas, sem acontecimentos, sem companhia. Fechado nas paredes do quarto 9 deixo que Borodin e Balakirev me embalem, enquanto leio sobre a Ásia; não a do Sul onde me encontro, mas a Central, que há algum tempo me fascina. O dia passa. Saio um pouco para ir correr. Esticar as pernas. Sentir o vento e o bafo quente de Carachi.

Ouço o azan expelido pelos microfones, colocados no alto dos minaretes, das três mesquitas, que se fazem ouvir na residência. O sol não tardará a pôr-se depois de mais um chamamento à oração. E recolho ao quarto 9. Nunca antes passara o primeiro dia do Festival do Sacrifício apenas comigo. Nunca antes tivera apenas os grafemas que compõem Maria da Esperança por companhia.

E num dia que poderia dar por perdido, sinto que ganhei. É certo que não sacrifiquei um qualquer animal comprado de antemão, mas sacrifiquei o contacto com gente; sacrifiquei convites de colegas (por essa gente que não se deixou contactar); sacrifiquei o meu tempo, por um tempo comum que não aconteceu... E amanhã, estou em crer, farei novo sacrifício...

Monday, September 05, 2016

Caminho e corro ou uma forma de dizer Parabéns

Ainda não são 18h30 quando chego ao quarto 9, da residência a que agora chamo "casa". Poiso a mochila no chão, tiro os sapatos paquistaneses, o relógio português, a pulseira tunisina e o anel turco. Sento-me na poltrona amarela. Amarela como o sol que hoje insistiu em não brilhar, escondendo-se atrás de uma horda de nuvens paquidérmicas. Mas não chove...

Olho para o relógio. Há poucos meses atrás começaria logo a preparar as aulas do dia seguinte, ou a responder a emails que estivessem pendentes, em qualquer uma das quatro contas de email que uso diariamente. Mas não tiro nada da mochila. E o meu computador, que dormita num gavetão, continua a sua sesta.

Troca a camisa azul, com finas listas brancas, por uma t-shirt verde marinha. Troco a calça de sarja, pela calça de fato de treino. Troco o sapato moccasin pelas sapatilhas. Coloco os auriculares, e enquanto desço as escadas deixo que a música comece. Rihanna toma a liderança na playlist. Abro a porta de vidro negro e saio para a rua.

Caminhar. Correr. Caminhar. Correr. Caminhar. Correr. Ainda não posso dizer que é um hábito, que está perto de um certo. Chamemos-lhe um quase-hábito ou uma meia-rotina. E enquanto corro lembro-me que fazes anos. Lembro-me das nossas caminhadas matinais. De como as pernas nos guiavam, mas eram as palavras e os sorrisos o que mais importava.

De como subíamos a encosta que leva a São Lourenço falando ora de política, ora de desporto, ora de desejo e por vezes, quase sempre por minha culpa, de lascívia. De como gostávamos que o vento, que sempre corre em São Lourenço, nos acompanhasse. De como eu sabia que no final do dia estaria a comer um Magnum de amêndoa, mas isso era o que menos importava.

Caminho e corro. E lembro-me como fizemos quilómetros e quilómetros a pé, enfrentando chuva e vento apenas para contrabandear amizade. Ou de como nos treinavas, para te treinares. Ou de como fizémos coreografias e actuações; de como andámos entre festinhas e competições. Lembro-me de como tudo era simples, tão simples, tão serenamente simples...

Caminho e corro. E lembro-me de como éramos três e agora és apenas tu por aí. Apenas tu podes ir dizer ao vento de São Lourenço, o que eu, e a Ana apenas podemos sussurrar de longe. Éramos três, chegámos a ser quatro, mas um país em metamorfose (não sei se para borboleta, ou se para novo estado larval!) achou por bem que nos separássemos.

Mas não é isso que hoje importa. Lembro-me de ti, enquanto corro e caminho. De como ficarás feliz por saber que tento manter o que te disse; que correria, pelo menos, dia sim, dia não; que tentaria mudar hábitos; que resistiria aos desejos do estômago, Lembro-me de ti e como gostarias de dizer que faltou fazer isto, ou fazer aquilo, ou fazer o outro...

E é isso que me faz sorrir. É essa Diana que quero celebrar hoje. A que se preocupa sempre com os que estão por perto. A que quer ver todos felizes e que, não raras vezes, se esqueça ela de ser feliz. A que prefere duas horas apenas de conversa, a meia-hora de selfies e outras tonteiras. É essa Diana que quero celebrar hoje. E amanhã, quando for correr, celebrar-te-ei outra vez. Parabéns Diana!