Sunday, September 25, 2016

Carta de um irmão distante... ou os 13 aninhos da Maria!

Olá maninha,

Tudo bem por aí? Por aqui o sol ainda brilha. Estão 32º graus na rua e o vento vai fazendo bailar as verdes folhas das árvores que vejo da minha janela. No meu quarto estão 25º graus e harmoniosas composições de Dvorak vão enchendo o meu ouvido. 13 aninhos Maria! Uma idade bonita, para uma princesa ainda mais bonita.

Estás agora naquele momento em que tudo muda e em que parece que és apenas o somatório de muitas negações. Ainda não és adolescente, já não és criança e ainda não és adulta. Não falta muito para que tenhas mais perguntas do que respostas e para que comecem a pedir mais e mais e mais... Escolhe isto; decide aquilo; resolvo aqueloutro.

13 aninhos Maria! Estás naquele momento em que começas a querer experimentar autonomia. Em que queres deixar de ser apenas a irmã ou a filha, para passares a ser a Maria. 13 aninhos Maria! E um mundo de oportunidades por explorar, com esse teu sorriso simpático e com esse olhar muito teu de quem vê o mundo com outras cores.

13 aninhos Maria! O que mais aprecio em ti é a naturalidade da tua originalidade. Essa capacidade muito tua de descobrir beleza no ordinário; de transformar a rotina em extraordinário; de transformar em gargalhada o enfado. Podes até estar na fase das múltiplas negações, mas és em ti criadora de ternura e de universos fantásticos.

Seria de esperar que te escrevesse uma carta com conselhos. Que te falasse dos meus 13 anos e extraísse lições e ilações, mas não o faço. Os 13 anos que hoje celebramos são teus e não meus. O caminho que hoje começa é também teu, que o meu segue outro percurso. 13 aninhos Maria! E mesmo de longe acordei com um sorriso no rosto. O sorriso de quem tem a felicidade de te ter por irmã.

13 aninhos Maria! E quando soprares as velas e pedires um, dois, quatro, sete ou treze desejos, deseja apenas poderes ser Maria. Porque não precisas de mais nada para ser feliz. São 13 aninhos Maria! E amanhã, com os presentes já abertos e já sem mensagens no facebook por ler, irei continuar a celebrar-te aqui de longe. Porque a distância não diminui o amor e a saudade apenas aumenta o carinho!

Feliz aniversário Maria!

Tuesday, September 13, 2016

Um dia a solo ou de como o Kurban Bayramı se tornou Eid al-Adha...

É a quarta vez que estou num país de maioria islâmica aquando do Festival do Sacrifício, ou Eid al-Adha na versão árabe e Kurban Bayramı na versão turca. Durante vários dias os muçulmanos sacrificam cabras, ovelhas, vacas ou camelos (uma novidade que descobri em Carachi) como forma de limpar os pecados e de agradar o Divino.

O Festival do Sacríficio é também uma recriação simbólica do momento em que Abraão se preparava para sacrificar o filho Ismael (ou Isaac [cristão e muçulmanos têm leituras diferentes do filho que foi oferecido em sacrifício]) e o anjo Gabriel, que vira provada a fé de Abraão, interrompe o profeta e faz aparecer um cordeiro que Abraão sacrifíca no lugar do filho...

O Festival do Sacrifício tem ainda uma terceira valência: a caridade. Após o sacrifício do animal, a carne do mesmo deve ser dividida não apenas entre parentes e amigos, mas de modo a que a mesma chegue aos mais pobres que, no resto do ano, não têm acesso à mesma. Limpam-se os pecados, honra-se a memória do patriarca dos monoteísmos e pratica-se caridade...

O Eid al-Adha ou Kurban Bayramı é um dos festivais religiosos muçulmanos mais importantes e, naturalmente, um momento para as famílias se reunirem. O ano passado partilhei desse espírito em casa de uma colega. No ano anterior passara os dias do Festival em casa de amigos, na agora tão distante Kırıkkale. E no ano anterior também me quedara pela Anatólia turca.

São quatro Festivais do Sacrifício seguidos e nunca, como hoje, me senti tão deslocado. Acordei cedo, com a residência num silêncio denso apenas rasgado pelo canto de alguns pássaros empoleirados na minha janela. Desci para o pequeno-almoço. Cruzei-me com um dos rapazes que assegura o funcionamento da residência. Disse-lhe Eid Mubarak ("Que seja um festival santo") e dei-lhe uma nota verde, de 500 rupias paquistanesas. Sorriu-me.

Esperei enquanto preparava a mesa do pequeno-almoço. Na mão direita, no dedo anelar, um anel com pedra negra que comprei na Turquia. Na mão esquerda um livro que trouxe de Portugal, sobre o Portugal do Império; o Portugal de um tempo que já foi, em que o exótico inundava Lisboa. E agora sou eu quem se deixa submergir no exótico, mas Lisboa está tão longe...

Leio sem pressas, a vida de Maria da Esperança (também ela fora do seu mundo!) enquanto almejo pelo pequeno-almoço. A omelete simples e a paratha (pão achatado típico do Sul da Ásia) chegam à mesa. O meu chá de jasmim chega pouco depois. E as compotas de maçã, de framboesa e de morango chegam em último. Não uso nenhuma. Prefiro um pouco de manteiga, antes de comer a omelete. Sozinho.

Termino o pequeno-almoço sem pressas. Sei que tenho colegas no quarto 2 e no quarto 5, mas ninguém quis sair do seu micro-cosmo. Opções... E quedo-me eu, e a Maria da Esperança, no salão da residência. Recusei dois convites para desfrutar da companhia de quem agora se fecha nos seus quartos, qual pérola dentro da ostra. Mas não lamento... O lamento fica para quando errar...

O dia passa sem pressas, sem acontecimentos, sem companhia. Fechado nas paredes do quarto 9 deixo que Borodin e Balakirev me embalem, enquanto leio sobre a Ásia; não a do Sul onde me encontro, mas a Central, que há algum tempo me fascina. O dia passa. Saio um pouco para ir correr. Esticar as pernas. Sentir o vento e o bafo quente de Carachi.

Ouço o azan expelido pelos microfones, colocados no alto dos minaretes, das três mesquitas, que se fazem ouvir na residência. O sol não tardará a pôr-se depois de mais um chamamento à oração. E recolho ao quarto 9. Nunca antes passara o primeiro dia do Festival do Sacrifício apenas comigo. Nunca antes tivera apenas os grafemas que compõem Maria da Esperança por companhia.

E num dia que poderia dar por perdido, sinto que ganhei. É certo que não sacrifiquei um qualquer animal comprado de antemão, mas sacrifiquei o contacto com gente; sacrifiquei convites de colegas (por essa gente que não se deixou contactar); sacrifiquei o meu tempo, por um tempo comum que não aconteceu... E amanhã, estou em crer, farei novo sacrifício...

Monday, September 05, 2016

Caminho e corro ou uma forma de dizer Parabéns

Ainda não são 18h30 quando chego ao quarto 9, da residência a que agora chamo "casa". Poiso a mochila no chão, tiro os sapatos paquistaneses, o relógio português, a pulseira tunisina e o anel turco. Sento-me na poltrona amarela. Amarela como o sol que hoje insistiu em não brilhar, escondendo-se atrás de uma horda de nuvens paquidérmicas. Mas não chove...

Olho para o relógio. Há poucos meses atrás começaria logo a preparar as aulas do dia seguinte, ou a responder a emails que estivessem pendentes, em qualquer uma das quatro contas de email que uso diariamente. Mas não tiro nada da mochila. E o meu computador, que dormita num gavetão, continua a sua sesta.

Troca a camisa azul, com finas listas brancas, por uma t-shirt verde marinha. Troco a calça de sarja, pela calça de fato de treino. Troco o sapato moccasin pelas sapatilhas. Coloco os auriculares, e enquanto desço as escadas deixo que a música comece. Rihanna toma a liderança na playlist. Abro a porta de vidro negro e saio para a rua.

Caminhar. Correr. Caminhar. Correr. Caminhar. Correr. Ainda não posso dizer que é um hábito, que está perto de um certo. Chamemos-lhe um quase-hábito ou uma meia-rotina. E enquanto corro lembro-me que fazes anos. Lembro-me das nossas caminhadas matinais. De como as pernas nos guiavam, mas eram as palavras e os sorrisos o que mais importava.

De como subíamos a encosta que leva a São Lourenço falando ora de política, ora de desporto, ora de desejo e por vezes, quase sempre por minha culpa, de lascívia. De como gostávamos que o vento, que sempre corre em São Lourenço, nos acompanhasse. De como eu sabia que no final do dia estaria a comer um Magnum de amêndoa, mas isso era o que menos importava.

Caminho e corro. E lembro-me como fizemos quilómetros e quilómetros a pé, enfrentando chuva e vento apenas para contrabandear amizade. Ou de como nos treinavas, para te treinares. Ou de como fizémos coreografias e actuações; de como andámos entre festinhas e competições. Lembro-me de como tudo era simples, tão simples, tão serenamente simples...

Caminho e corro. E lembro-me de como éramos três e agora és apenas tu por aí. Apenas tu podes ir dizer ao vento de São Lourenço, o que eu, e a Ana apenas podemos sussurrar de longe. Éramos três, chegámos a ser quatro, mas um país em metamorfose (não sei se para borboleta, ou se para novo estado larval!) achou por bem que nos separássemos.

Mas não é isso que hoje importa. Lembro-me de ti, enquanto corro e caminho. De como ficarás feliz por saber que tento manter o que te disse; que correria, pelo menos, dia sim, dia não; que tentaria mudar hábitos; que resistiria aos desejos do estômago, Lembro-me de ti e como gostarias de dizer que faltou fazer isto, ou fazer aquilo, ou fazer o outro...

E é isso que me faz sorrir. É essa Diana que quero celebrar hoje. A que se preocupa sempre com os que estão por perto. A que quer ver todos felizes e que, não raras vezes, se esqueça ela de ser feliz. A que prefere duas horas apenas de conversa, a meia-hora de selfies e outras tonteiras. É essa Diana que quero celebrar hoje. E amanhã, quando for correr, celebrar-te-ei outra vez. Parabéns Diana!


Wednesday, August 31, 2016

Um ano e um dia, e amanhã é Setembro

30 de Agosto, 2015. Lembro-me de passar o controlo de segurança, depois de feito o check-in, com a tranquilidade normal de mais um voo. Eu que já ando "pelos ares" desde 2005, já tomo certas coisas como rituais. Fui calmamente para a porta de embarque. Sentei-me. Li as últimas mensagens que prometiam sucesso e desejavam felicidade. Respondi a todas.

Liguei-te. E tentando estar serena desejaste-me muita sorte, muita felicidade, muito sucesso. E declaraste, uma vez mais, o orgulho que tinhas em mim e quando ias dizer que "amo-te muito filho", quase senti a humidade salgada das lágrimas grossas que rolavam pelos olhos de jade, que emolduram o teu rosto sereno. E terminámos os dois a chorar. Um em Abrantes, outro em Lisboa. Distância curta que se tornaria longa num instante.

E respondi a mais umas quantas mensagens. Lá se fez anunciar o embarque para Istambul. Curioso como embarcar para Istambul se tornou normal, desde 2013. Era em Istambul que tudo passaria a ser novo. E com esse sentido de uma certa normalidade, num momento novo, lá me sentei; coloquei os auriculares; escolhi um album jazz e serenei...

Aterrei em Istambul. Normal. Já o fizera antes. Mas desta vez não segui para o embarque doméstico, com rumo a Ancara. Desta vez segui no embarque internacional. Destino: Carachi. Agora sim começava o novo. Mas é difícil pensar em "novo" num aeroporto conhecido. E por isso só quando descolámos, deixando para trás o que conhecia, percebi pela primeira vez que estava a começar algo novo. Dali para a frente o desconhecido!

Aterrei em Carachi que me recebeu, de madrugada, com o abraço quente dos 28 graus celsius. Um oficial com o meu nome impresso num papel guiou-me pelo aeroporto. Passámos o controlo de passaporto. Recolhemos a mala. Um segundo rosto, tão desconhecido quanto sorridente, envergava um segundo papel com o meu nome. E uma hora depois dormia no quarto, a que agora chamo de casa.

30 de Agosto, 2016. Acordei, pouco passava das oito da manhã. Sem pressas, que a pressa é companheira de quem não tem rotinas. E eu tenho rotinas; muitas; ordeiras; consistentes. Ainda não eram nove da manhã e já aguardava pelo pequeno-almoço na sala comum. Há um ano atrás era no quarto. Gosto mais assim. Somos gente e não pedras. Precisamos de outra gente que nos "gentifique".

Segui directo ao gabinete, num campus que tem já poucos segredos para mim. Preparei café, aroma "Paris", para começar a manhã. E num instante estava na sala de aula. Conheço os rostos de muitos dos alunos e alunas sentados na sala, e ainda nem leccionei para a maioria. Coisas de Coordenador de Licenciatura.

Segui de uma aula, para a outra. Quase sem pausa, porque há sempre mais um papel a assinar e mais uma chamada urgente. E quando dei por mim estava na "Sala de Eventos", num evento informal de convívio entre alunos e docentes do meu departamento. Havia expectativa nos caloiros e sorriso nos demais. E esperavam palavras minhas.

E subi ao palco. Alinhei o corpo com o pódio. E quando deviam sair sons, saíram primeiro lágrimas. A emoção por vezes vence. E por vezes nem luto. Respirei fundo. Revi o que queria dizer. Lá saíram fonemas organizados, sem a complexidade desejada e sem a criatividade ensaiada. Fonemas simples, secos, informativos mas envoltos em veludo.

Almocei. E segui para mais uma aula. O dia, há um ano, teria terminado, mas não terminou. Corri. Fiz exercícios físicos complementares. E sentei-me para responder a emails: mais de sessenta. E respondi a tudo. Pelo meio três chamadas e umas quantas mensagens. Até uma breve ligação skype com um colega na Alemanha. E deitei-me... Amanhã será outro dia.


Saturday, August 20, 2016

Voltei e cheguei a Carachi... ao mesmo tempo...

Voltei há quase 3 semanas... Estive quase dois meses fora, se é que "estar fora" se aplica. Como se decide "estar fora" entre o local onde fica o coração e o local onde vivemos? Como se decide "estar fora" quando deixamos de ter o preto e o branco e nos movimentamos entre matizes de cinzento? Como se decide "estar fora" quando parece que estamos sempre fora, ou sempre dentro, ou sempre algures?

Voltei há quase 3 semanas a Carachi. Para trás ficaram quase dois meses de Portugal. Repartidos entre a serenidade familiar na agora centenária cidade de Abrantes; entre o calor das novas amizades lavradas em Tomar; entre a doçura de rostos das boas gentes do Porto; entre a vivacidade e o bulício da minha querida Lisboa. Foram quase dois meses em que queria sentir-me dentro, sabendo que parte de mim já estava fora. E quando chegasse "lá fora" uma parte ficaria ali dentro.

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, mas foi como se chegasse de novo. É tudo diferente. Parti de Carachi, no começo de Junho, como Professor, apenas para regressar como Coordenador, nos primeiros dias de Agosto. Não fui o único a partir. Três colegas seguiram para novos "foras", novos rumos. E três novos rostos ocuparão o seu lugar. Uma chegará hoje...

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, a essa Carachi onde nunca chovera, e logo começou a chover. Como se os céus me quisessem dizer que não há repetições; que não cheguei para um remake mas para um novo episódio. Estou no mesmo espaço, mas num momento diferente. E por isso se é certo que voltei a Carachi, não é menos certo que só cheguei a este momento agora.

Voltei ao mesmo quarto, no segundo andar, no corredor direito, com o número 9 na porta. Mas o número 8, que albergava um desses colegas, repousa agora num silêncio incomum. Num silêncio que torna tudo isto novo, apesar de tudo permanecer semelhante no número 9. Nada permanece igual, quando somos feito de movimento e de emoções. Eu sei que o igual é uma ilusão, criada apenas para dar conforto. Mas por vezes o ilusório conforto é tudo o que basta...

Voltei ao mesmo quarto, no segundo andar, no corredor direito, com o nímero 9 na porta. Mas trouxe comigo novos rituais. Chá com mel do norte do Paquistão aos sábados e café, que trouxe de Portugal, aos domingos. Trouxe para o mesmo quarto, rotinas novas. A serenidade da leitura ou o ócio constante entre a poltrona amarela e a cadeira preta, substituídas por corridas, e agachamentos e flexões e sei lá mais o quê!

Voltei e cheguei a Carachi, ao mesmo tempo. Pronto para experimentar o novo, neste espaço que já conheço mas que me reserva o desconhecido. Voltei e cheguei para recomeçar, mas não para repetir. E apesar da incerteza ser a única certeza sinto-me confortado. Se fosse para remakes ficava na centenária Abrantes num loop de carinho familiar; ou deixava-me pelo Porto num carrousel de aventuras; ou quedava-me por Lisboa...

Voltei há quase 3 semanas a Carachi, mas não vi em busca do que já foi mas do que poderá ainda ser.  Porque sei que não sabendo ao certo onde é o meu "estar fora", acabo por estar sempre dentro; por estar sempre num espaço que é meu e não é meu, porque o espaço a ninguém pertence. Voltei em busca de mais peças para entender o puzzle que sou. E amanhã começa mais uma semana...


Sunday, May 01, 2016

Hoje recordo... E depois celebraremos...

O dia nasceu sem sol. Nuvens brancas no céu e um vento quente agita as folhas das árvores e aquece os corpos. O sol não nasceu mas está calor. Ainda não é uma da tarde e já passámos os 35ºC (37ºC diz o termómetro). Tentei desligar o ar condicionado por uns instantes, mas logo grossas gotas de suor contrariaram os meus intentos.

O ano passado estávamos juntos. Há dois anos não. Ainda falho em entender porque decidimos dar ao dia da Mãe a volatilidade do primeiro domingo de Maio, enquanto o dia do Pai se fixa no estável 19 de Abril. Não há muito tempo, já mo disseste antes, celebrávamos o dia da Mãe a 8 de Dezembro. Não que a data mude a distância, mas gosto de pensar em outras coisas.

Ia querer acordar mais cedo. Ir até à cozinha. Dar de comer ao Bob, para ele se distrair e depois preparar o pequeno-almoço. Ia tentar fazer o mínimo barulho. Colocar tudo na sala de jantar; como quem preparar um banquete para uma Imperatriz. Ia colocar mais coisas na mesa do que as que conseguimos comer, porque o importante era estarem lá... como eu não estou hoje...

Ia ter alguma coisa combinada com a Catarina e com a Inês. Talvez flores, túlipas se as encontrássemos bonitas. E por certo um postal. Ia já ter pensado em algo bonito para escrever, sabendo que as palavras são pálidas e fracas para te agradecer tanta coisa. Para transformar em obrigado os silêncios de cumplicidade e as horas de paciência.

Talvez fossemos almoçar fora. E porque não? É verdade que não és mais Mãe hoje, do que foste ontem, ou do que serás amanhã, mas é hoje que te celebramos enquanto Mãe. Há dois meses atrás celebrámos a Mulher. E por isso repito, talvez fossemos almoçar fora, ao Aquavital, com vista para o  Tejo que insiste em não me levar as Saudades.

Mas desta vez não posso. Voltei a estar longe. Mais longe do que em 2014, quando andava pela Anatólia Turca. Agora estou nos domínios do Império Mugal. No Sul da Ásia. No Paquistão. Agora acordo sozinho, envolto no desconfortável abraço de um calor persistente; em vez de acordar para o teu abraço suave. Mas não esqueço que é o teu dia.

E é em ti que me inspiro hoje. É em ti que penso enquanto passo mais um fim-de-semana a trabalhar, entre aulas de compensação, reuniões e avaliação de trabalhos. É em ti que me revejo, enquanto tento batalhar por um futuro melhor. Não tenho três filhos, mas tenho cinco princesas e quero poder dar a todas algo melhor. E sei agora, um pouco, daquilo que passaste. E sozinha. E em silêncio.

Não te vou abraçar, mas isso não importa. Porque os abraços não se esgotam e em Junho dou-te um, ou dois, ou quinze. E enquanto choramos os dois (sabemos que vai acontecer) dou-te mais outro abraço. E depois conto-te tudo e depois quero ouvir-te contar tudo. E depois preparo-te o pequeno-almoço. E depois faremos o que não fizemos hoje.

E enquanto o depois não chega, enquanto a distância não se encurta, enquanto as folhas do calendário não anunciam Junho, apenas tenho uma coisa a dizer: Feliz Dia da Mãe. Beijinhos!

Monday, March 28, 2016

Lahore, pensamentos no dia seguinte

Lahore, capital da província de Punjab, sofreu ontem um dos mais terríveis atentados da sua história. No final do dia de Domingo de Páscoa, um bombista suicida rebentou-se num dos parques mais populares da cidade. Para já contam-se 72 mortos, mas com quase 300 feridos o número deverá subir nos próximos dias.

O ataque de ontem transmite, na sua forma mais dantesca e preversa, através da morte de crianças e mães, uma série de mensagens que importa entender. O ataque, reivindicado pelo Tehreek-i-Taliban Pakistan Jamaatul Ahrar (um subgrupo Talibã radicado no Paquistão), é uma prova de que os Talibã conseguem operar onde e quando quiserem no Paquistão...

Nos últimos meses gerou-se um clima de confiança de que os Talibãs estariam limitados a um raio de acção próximo da fronteira com o Afeganistão. O ataque na Universidade de Bacha Khan (Charsadda) a 20 Janeiro, ou a explosão do autocarro governamental em Peshawar a 7 de Março pareciam confirmar a incapacidade dos Talibãs actuarem longe da fronteira. A tragédia de ontem em Lahore destrói esta narrativa.

O ataque é também um claro sinal da intolerância dos Talibãs Paquistaneses para com a tolerância inter-religiosa do actual governo. O actual governo do Paquistão, este ano, na mesma semana, concedeu feriado à minoria Hindu (Holi, na quinta-feira) e à minoria Cristã (Domingo de Páscoa) e com isso arriscava-se a comprementar a visão fundamentalista de quem entende a Religião apenas e só em tom bélico: Nós contra Eles!

O ataque é um claro "murro simbólico" contra o Primeiro-Ministro Nawaz Sharif que nasceu em Lahore, e que disse recentemente que a província de Punjab estaria brevemente livre do fundamentalismo dos Talibãs e do Daesh. Uma mensagem audaciosa, do homem que reforçou os poderes dos Rangers e do Exército para estabilizar, com imenso sucesso, a muito instável Carachi.

O ataque insere-se, ainda, no momento em que ocorriam uma série de manisfestações pró-Mumtaz Qadri em Islamabad (onde mais de 2000 homens permanecem, ainda hoje, sentados frente ao Parlamento) e em Rawalpindi. Os protestos de domingo terão reunido mais de 10.000 manifestantes em Rawalpindi e quase 25.000 em Islamabad. Uma estranha demonstração de apoio, para com um assassino...

Pequena pausa explicativa: Mumtaz Qadri, fundamentalista islâmico, foi executado, por ordem judicial a 29 de Fevereiro (dia escolhido de propósito para evitar celebrações anuais, por causa do aniversário da sua morte!) após ter assassinado o Governador Salman Taseer, de quem era guarda-costas. Isto porque o Governador em causa defendera Asia Bibi, mulher Cristã, num caso em que a mesma era acusada injustamente de blasfémia.

Mas se o ataque tem dimensões simbólicas importantes, também tem os seus fracassos. O ataque que tinha por alvo famílias cristãs, acabou por vitimar essencialmente famílias muçulmanas. O ataque que pretendia criar apenas medo e aprofundar divisões; levou a uma extraordinária onda da solidariedade com centenas a doarem sangue e a prestarem auxílo. Nas redes sociais corre mesmo a frase de que "há sangue muçulmano e cristão misturado em cada transfusão".

O ataque levou o Primeiro-Ministro a dotar os Rangers de maior poder; ao estilo do que aconteceu em Carachi. Ora os Rangers, em parceria com o Exército, já mostraram ter capacidade de estabilizar uma megapólis de 24 milhões como Carachi, pelo que Lahore, que conta com o beneplácito do Primeiro-Ministro, deverá aguardar por melhores dias.

O ataque, para além da raiva, do choque e dor, causou ainda uma curiosa onda de indignação na emergente classe média Paquistanesa, que não consegue entender a lógica do bombista suicida se ter feito rebentar na zona dos baloiços. Mesmo que o alvo preferencial fossem as crianças cristãs, na zona dos baloiços não existem religiões pelo que foi aposta errada...

É certo que o ataque de ontem em Lahore levou a ajustes nas rotinas de hoje por todo o país. Ao contrário do que normalmente acontece, hoje o Fidalgo foi revistado ao entrar na Faculdade onde lecciona... Isto apesar de entrar na mesma, com carro e motorista da Faculdade. E de dormir dentro do campus, num edifício da Faculdade. Mas esses pequenos a pessoas tolera. A dor, o horror e o choque levarão mais tempo a ajustar...