Thursday, March 16, 2017

A ilusão da vitória nos Países Baixos... ou o tapar do sol com a peneira!

Os Países Baixos foram a votos ontem, naquela que foi a primeira eleição de relevo no panorama político europeu, que conta ainda este ano com eleições legislativas na Bulgária, França, Albânia, Noruega, Alemanha e República Checa; eleições presidenciais na França, Eslovénia e Sérvia e eleições autárquicas em Portugal, Reino Unido, Estónia, Dinamarca e Finlândia.

A campanha eleitoral desde cedo que se polarizou entre o populismo de extrema-direita do PVV de Geert Wilders contra "todos os outros", encabeçados pelo VVD, de centro-direita, do Primeiro-Ministro Mark Rutte. As sondagens causaram arrepio em Bruxelas, quando de súbito o PVV aparecia como potencial vencedor das eleições.

Veio o dia do voto. Contaram-se os votos. Vieram os resultados. E perante os resultados deparo-me com um ambiente festivaleiro de celebração, em torno de um resultado que nada tem para ser celebrado. O Primeiro-Ministro diz que "foi vencida uma espécie errada de populismo", mas olhando para os números falho em ver isso...

O VVD ganhou as eleições, é um facto, mas desceu dos 26.6% alcançados em 2012 para os 21.3% (2017), o que se traduz numa perda de 8 mandatos: de 41 mandatos em 2012 para 33 mandatos em 2017. O PVV passa de 10.1% (2012) para 13.1% (2017), ou seja sobe 2% no voto nacional, conquista cinco novos mandatos (passando de 15 para 20) e torna-se na segunda força política.

Mais interessante, e pouco referido por muitos media onde falta investigação e por muitos analistas que não fazem "o trabalho de casa" (porque, lá está, dá trabalho!), é o caso do PvdA, parceiro de coligação do VVD que passa de 24.8% em 2012 para uns parcos 5.7% (perdendo 19.1% do voto nacional) passando de 38 mandatos para 9 mandatos.

Ora quando os partidos da coligação governamental, numa eleição que disputava 150 mandatos, conseguem perder 37 mandatos (cerca de 25% do total de mandatos em disputa) falho em perceber onde está a tal vitória. Com o actual cenário qualquer coligação governamental precisará incluir, pelo menos, quatro partidos para alcançar maioria simples (76 mandatos) no Parlamento holandês.

As negociações para formar a coligação governamental não serão simples, tendo em conta a pulverização de votos num Parlamento que passa a albergar 14 forças políticas, ao invés das 11 que ganharam mandatos em 2012. A "chave" para a coligação poderá estar nas mãos do GL que passou de 2.3% de votos para os 8.9%, ganhando 10 novos mandatos (passando de 4 para 14 mandatos).

É verdade que o PVV não vai formar governo, mas isso era um dado adquirido à priori. Todos os partidos com assento parlamentar e com bons resultados nas sondagens pré-eleitorais tinham já dito que não iriam estar dispostos a fazer coligação com o PVV. E nos Países Baixos governos de partido único são uma raridade.

A celebração pífia da tal grande vitória do VVD, lembra-me os festejos bacocos após a segunda volta nas eleições presidenciais na Áustria (Dezembro, 2016). Uma vez mais, a extrema-direita (agora apelidada de direita populista pelos media) não chegou ao poder... Mas o facto de ter chegado a uma segunda volta e de nessa segunda volta ter tido mais de 46% de votos tem que nos alarmar, mais do que tranquilizar.

Mas celebrem lá estas pequenas vitórias em Bruxelas e pela Europa fora. Ignorem o avanço significativo da extrema-direita (ou da direita populista). Entretenham-se com joguinhos de palavras nos media e depois fiquem pasmos quando um punhado governos na Europa da União forem tomados de assalto, pelo voto popular.


Monday, March 06, 2017

Notas sobre o simbolismo da final de críquete no Paquistão

A Associação de Estudantes do IBA convidou-me no sábado à noite para assistir, no domingo à noite, à final da Super Liga de Criquete do Paquistão (PSL). A final, que decorreu em Lahore, foi transmitida num ecrã gigante no anfiteatro do IBA... E para que tal evento acontecesse precisavam ter um docente presente, ou não teriam permissão da administração. A honra coube ao docente português (que nem segue a modalidade)!

As bancadas do anfiteatro estiveram sempre cheias e bastante animadas, enquanto eu ia tentando perceber um desporto que nunca me chamou a atenção. E após ver a final entre Peshawar e Quetta confesso que o desejo de saber mais sobre críquete é mínimo, ou nulo. Mas então porque aceitei estar presente na transmissão da final que decorreu das 18h até perto da 1h da manhã?

Porque esta final tinha uma importante dimensão simbólica. Voltou-se a jogar críquete profissional no Paquistão, após uma proibição legal imposta em 2009 na sequência de um ataque à selecção de críquete do Sri Lanka. O ataque, que vitimou 6 polícias e 2 civis, aconteceu a 3 de Março de 2009, antes de um jogo que iria decorrer mesmo estádio que agora recebeu a final da PSL este ano.

A proibição legal obrigou a alguma criatividade, num país que vibra tanto com o críquete como Portugal vibra com o futebol e os EUA com o basquetebol. A PSL passou a ser jogada nos Emiratos Árabes Unidos. Este ano a liga foi, uma vez mais jogada nos Emiratos Árabes Unidos, mas a final, por decisão do governo federal decorreu este ano em Lahore, no Estádio Qaddafi.

A decisão dividiu a classe política e a sociedade paquistanesa. De um lado os apoiantes do Primeiro-Ministro Nawaz Sharif (PML-N) e da tese da "normalização progressiva", que aplaudiram a iniciativa que convenientemente acontece antes das próximas legislativas que se disputarão algures em Março de 2018. A final de ontem foi uma vitória para esta ala.

Na outra ala, as vozes críticas com expoente máximo no líder do PTI (e curiosamente ex-jogador de críquete!), Imran Khan, e dos adeptos da tese do "estabilizar primeiro". Para esta ala a despesa colossal gasta com um dispositivo de segurança massivo (que levou, pelo menos, três anos a planear) criou ontem uma falsa sensação de segurança. Imran Khan disse mesmo: "com este dispositivo todo até na Síria podiam fazer a final".

As duas teses estão certas. O Paquistão precisa de fazer uma normalização progressiva da sua vida cultural e desportiva, mas antes disso precisa de estabilizar primeiro os sectores ecónomico-social e conservadores. A onda de atentados das últimas semanas, que culminou com o atentado em Sehwan, mais não foi do que uma reacção dos grupos ultra-conservadores que temem a normalização do país.

Porque o recrutamento quer para as várias facções dos Talibãs, quer para o auto-proclamado Estado Islâmico, quer para as milícias locais, é mais fácil se não houver esperança de que as coisas vão melhorar. Sem a passividade, induzida pela falta de esperança, do crente, que aguarda que a fé e a oração mova os problemas em passe mágico, estes grupos perdem muito do seu poder magnético.

Foi isso que o Primeiro-Ministro do Paquistão tentou contrariar com a organização da final de ontem, que (dizem os fãs da modalidade) não foi especialmente entusiasmante do ponto de vista desportivo, mas que do ponto de vista simbólico criou uma onda de optimismo pelo futuro próximo que é importante saber utilizar nos tempos vindouros.

A final sem incidentes de segurança foi um prémio também para o exército, que atravessa uma fase de lutas interinas pela manutenção de cargos; pois a chegada de um novo Chefe das Forças Armadas cria sempre oportunidades e ameaças. A final foi assim um momento de rara união nacional, que é preciso saber valorizar, até porque lá para o final do ano entramos em pré-campanha eleitoral...

...

Thursday, March 02, 2017

55 túlipas e igual número de beijinhos...

Cheguei à residência pertinho das 19h. Depois de mais de três horas de aulas a falar de Partidos Políticos e Sistemas Partidários o que mais me apetece é descansar, mas antes tenho ainda uma aula para preparar, alguns emails para enviar e tenho que ir até à passadeira. Lá vou correr para parte nenhuma, desafiando-me apenas a mim...

Deixo que a voz da Mariza ecoe pelo quarto, enquanto me preparo para ir transpirar o stress. E no silêncio sonoro do meu quarto vens-me à memória. Estiveste todo o dia no meu pensamento, mas agora que resto apenas eu o silêncio, a memória torna-se mais vivida, intensa, quase real. Penso em como terás acordado cedo, quase duas horas antes de saires de casa.

Talvez tenhas aquele pijama roxo fofinho, que por esses lados ainda as noites são frias. Terás acordado, e talvez feito duas ou três rondas do "Palavraz". Até que o Bob, algures escondido acorde, e te comece às lambidelas. Consigo quase imaginar-te a levantar, colocar o pijama e dizeres com a tua voz doce: "Bob vamos à rua". Mais rápido que uma flecha, o Bob segue para a porta com o entusiasmo do passeio matinal.

Ana Moura termina de cantar. Olho as horas. Passam dois minutos das 19h. Reconheço a voz da Carminho. E volto às memórias, que nunca me abandonam. Irás passear com o Bob, enquanto pensas no que deixar para o almoço da Inês e talvez no que fazer para o jantar, que não devias ser tu a preparar. Sorrio. Pensas sempre primeiro nos outros e depois nos outros... e só depois em ti!

Quase aposto que após o passeio matinal, segues para a casa. E enquanto o Bob mordisca a sua comida, ou ataca o sofá, tu vais-te arranjando e deixando tudo pronto. Se for preciso abdicas do teu pequeno-almoço, para ter um almoço do qual não desfrutarás pronto. Filomenices... Antes de saires deixas um bilhete com instruções, assinado com o teu ternurento "Mãe Mena".

Fecho a porta do quarto, coloco os auriculares para terminar de ouvir António Zambujo. Sigo para a zona de exercícios na residência. E penso como terás beijinhos de parabéns das colegas, de alguns papás e de algumas mamãs e talvez até dos meninos e meninas da tua sala. E se não tiveres são eles que mais perdem... E depois segues para casa, para preparar um jantar para que te celebrem.

A Inês virá do trabalho com fome, a Catarina cansada, e o Bob andará em busca da generosidade alheia. E terão sorrisos, e conversas e talvez fotos. E chegará o bolo e o Parabéns a você. Virão presentes e flores e beijinhos e se a coisa se proporcionar café e digestivo. E depois ficas tu a limpar a tua festa, que tu organizaste. E fico eu, aqui, longe mas sentindo-te perto.

Sinto as lágrimas, três ou quatro, escaparem dos meus olhos e rolarem pelo rosto. Não estou triste. Estou longe, é certo, e não estarei aí para te dar as merecidas 55 túlipas, talvez da cor do pijama fofinho com que acordaste de manhã... Mas estou contente, saudoso, mas contente. Porque destes 55 ciclos fiz parte de 30 e pude aprender e crescer contigo.

Mais uma lágrima rola pelo rosto, mas estou feliz. Porque hoje celebro-te de longe, sem o toque da pele na pele, mas com os sentimentos de coração para coração; mas sei que no Verão te poderei celebrar de perto. E beberemos chá no final da noite, com bolo caseiro feito por ti, enquanto vemos uma qualquer série ou filme.

O teu dia não é hoje, mas sempre. Porque todas as noites te desejo boas noites e todas as manhãs te digo bom-dia, mesmo que quase sempre sem palavras. Porque no silêncio o som das palavras perde-se, mas a vibração dos sentidos fica. Porque hoje celebramos os 55 ciclos já completos, mas amanhã e depois e depois e depois celebramos-te apenas a ti: PARABÉNS MÃE!


Monday, November 14, 2016

Chisinau e Sófia vão a votos... Bucareste transpira. Moscovo sorri!

O domingo ficou marcado por duas eleições Presidenciais com vários pontos em comum: 1.) ambas ocorreram no Leste Europeu; 2.) ambas disputavam a segunda volta; 3.) ambas tinham como oponentes um homem e uma mulher; 4.) ambas discutiam, mais do que outra coisa, esferas de influência para os próximos anos.

Na Moldova, o estado mais pobre do continente Europeu e um dos membros signatários da Parceria de Leste, o candidato pró-Rússia, Igor Dodon (Partido Socialista da Moldova) conseguiu 52.2% superando os pouco mais de 47% de votos que alcançara na primeira volta. Maia Sandu (Partido Acção e Solidariedade) ficou-se pelos 47.8%.

Igor Dodon, que defende uma aproximação da Moldova à Federação da Rússia, conseguiu capitalizar no descontentamento dos eleitores para com os partidos pró-UE. E mesmo o facto de Maia Sandu ser considerada uma política honesta, pelo seu não envolvimento nos múltiplos escândalos político-financeiros que têm agitado a República da Moldova, não chegou para travar Dodon.

A taxa de participação na Moldova ficou ligeiramente acima dos 53%, um valor demasiado baixo para um país que elegia pela primeira vez o Presidente por voto popular directo. Nos últimos 16 anos coube ao Parlamento (instituição dominante no regime parlamentar Moldovar) a função de indigitar o Presidente da República.

Na Bulgária, que aderiu à União Europeia em 2007 juntamente com a Roménia (que vai a votos em Dezembro!), com o escrutínio quase terminado, com 99.3% dos votos contados e validados, a vitória recaiu sobre Rumen Radev, candidato apoiado pelo Partido Socialista da Bulgária. Radev conquistou mais de 59% dos votos (59.4%), contra os 36.2% de Tsetska Tsacheva, candidata do partido no poder (GERB).

Ramen Radev, como Dodon, defende uma linha de aproximação político-diplomática entre Sófia e Moscovo sendo certo que Sófia passará a defender o fim das sanções da UE a Moscovo (vêm aí dias complicados para Juncker&Co.!), será menos aguerrida contra as insurgências no Donbass e poderá mesmo formalizar o reconhecimento da anexação da Crimeia.

Resultado imediato da eleição de Radev foi a queda do governo de coligação suportado pelo GERB, que controla as rédeas do poder em Sófia desde Julho de 2009. Eleições antecipadas não acontecerão antes de Março de 2017, uma vez que o Presidente cessante (Rosen Plevneliev) não tem já poder para dissolver a actual legislatura e Radev só o poderá fazer após tomar o cargo a 22 de Janeiro de 2017. Uma vez dissolvido o Parlamento as eleições terão lugar em 60 dias.

Apesar da corrupção ter sido tema dominante, uma onda de nostalgia pela URSS e uma vontade de aproximação ao gigante a Leste num momento de transformação e incerteza no seio da União Europeia terão facilitado a vida de Radev. Esta eleição é tanto uma derrota da UE, que tem resistido a uma restruturação que passe pela devolução de soberania aos estados, como uma vitória de Moscovo que tem sabido capitalizar nas fragilidades de Bruxelas.

A dupla eleição presidencial, na Bulgária e na Moldova, mostrou também um curioso paralelismo com as candidaturas pró-UE a serem encabeçadas por duas mulheres: Sandu (Acção e Solidariedade, Moldova) e Tsacheva (GERB, Bulgária); ao passo que as candidaturas pró-Moscovo foram encabeçadas por dois homens do, ou apoiados pelo, Partido Socialista: Dodon (Moldova) e Radev (Bulgária).

A dupla eleição presidencial irá, seguramente, ter reflexos nos desenvolvimentos políticos na vizinha Roménia, que se prepara para ir a votos, para escolher uma nova composição parlamentar, a 11 de Dezembro. É pouco expectável que a Bulgária saia da UE ou a Moldova desista da Parceria de Leste, mas é altamente provável que ambas esfriem o seu euro-entusiasmo e re-aqueçam as relações com Moscovo.

Thursday, November 10, 2016

O primeiro olhar sobre a peculiar eleição presidencial nos EUA

Tenho andado ausente do comentário político e peço desculpas por isso. As novas funções como Coordenador de Licenciatura acabaram por me "roubar" mais tempo do que previsto, e a estas somaram-se funções honoríficas numa série de eventos locais... Mas, aos poucos, tentarei retomar o contacto com a actualidade.

E nada melhor do que re-começar com o tema quente do momento: a eleição de Donald Trump como 45º Presidente dos Estados Unidos da América. Começo por responder a uma questão: em quem votaria? Em ninguém. Como monárquico convicto que sou, não entendo a utilidade da selecção do Chefe de Estado pelo voto popular. Se fosse norte-americano iria descarregar o voto em branco.

Poucos analistas, eu incluído, levaram a sério a candidatura de Donald Trump, quando este anunciou que estava na corrida para a nomeação do Partido Republicano. Em sala de aula cheguei mesmo a dizer aos alunos de Introdução à Ciência Política que as hipóteses de Trump, comparado com Rubio ou Bush, eram mínimas. Estava errado...

Olhando com atenção e curiosidade para o decurso das primárias, em ambos os partidos, comecei a mudar a minha posição. Só os tolos não se adaptam aos factos! Quando regressei a Carachi, em Agosto, assumi por mais do que uma vez que Trump tinha imensas hipóteses de vencer. E não me foquei na parolice insuflada do "discurso do ódio" e do "eleitor-burro". Foquei-me em factos!

Ignorar, como os media e muitos analistas fizeram, o simples facto de Trump ter tido umas primárias sobejamente mais complicadas (à partida) mas, curiosamente, menos dramáticas (à chegada) e de Clinton ter tido o inverso foi algo que me recusei a fazer. É certo que a máquina partidária Republicana reagiu, e muito, contra Trump. Mas é igualmente certo que a Convenção não foi tensa ou dramática como se previa.

Já Hillary Clinton, com a máquina partidária do seu lado (lembremo-nos que a esmagadora maioria dos super-delegados quase automaticamente declararam votar Clinton!) e com os media enamorados por ela, chegou à Convenção dependente de Bernie Sanders. No final do dia foi Sanders, aliás, quem desbloqueou a Convenção, num gesto de extrema lealdade para com o partido Democrata.

As primárias ficaram marcadas pelo tema do "anti-sistema", mas a máquina mediática preferiu focar-se nas gaffes e lapsos linguísticos de Donald Trump. Não querendo escamotear algumas das suas propostas, ficou a impressão de uma ênfase exagerada nos seus traços negativos, quando do outro lado da mesa estava uma política experimentada com provas dadas... e algumas delas com maus resultados ou más práticas.

As primárias falaram alto contra o tal sistema e a hostilização do partido Republicano a Trump, acabou por cristalizar a imagem do guerreiro-solitário que diz o que quer, quando quer, como quer, porque não deve nada ao partido. No outro lado da mesa, com mais tacto e menos verborreia, Sanders tentava fazer o mesmo. Mas Clinton tinha, porque tinha, que ser nomeada e candidata. Afinal já falhara umas eleições primárias em 2008...

É aqui, para mim, que Trump constrói a sua vitória. Soube cavalgar a onda de descontentamento e usar as múltiplas adversidades em sua benesse. Não querendo fazer de Trump um paladino destas eleições, parece-me erróneo ignorar o facto dos jornalistas, analistas políticos, políticos de várias sensibilidades, artistas e académicos terem gozado (literal e metaforicamente!) com Trump. E agora, com o ceptro nas mãos, Trump pode rir-se de todos.

Trump até pode ter dito muita algaraviada e patacoada, mas não tentou focar a sua eleição nos seus órgãos genitais como Clinton acabou por fazer, em muitas instâncias. Disse muito impropério mas a sua agenda era menos oca, mesmo que a possamos rotular de perigosa ou turculenta, do que se tentou "vender".

Clinton mostrou, especialmente nos debates, um lado arrogante, frio, pouco empático e elitista que afastou o eleitorado e que justifica, e muito, a vitória Republicana em todas as frentes. Numa análise fria à linguagem de ambos, nos debates, nenhum sai a ganhar. Mas ao menos Trump assumiu a sua saloice, enquanto Clinton tentava disfarçar a coisa... mas mal...

Os erros de Clinton, na governação, também não ajudaram. Parece-me extraordinário que muito comentador e comentadeiro tenha tentado ignorar, de propósito, as amizades com a Árabia Saudita, os erros graves na Líbia, ou a linguagem confrontacional com Moscovo. O foco era sempre o putativo muro no México, que Trump de resto desmistificou na sua viagem... ao México.

Achei ainda mais curioso, para não dizer ridículo, ter que ler e ouvir muito Europeu criticar a ideia de Trump de expulsar emigrantes ilegais dos EUA (Trump tem pouco, se algum, interesse em expulsar/deportar as comunidades emigrantes legalizadas e a residir nos EUA!), quando muitos desses mesmos Europeus defendem quotas apertadas para a entrada de emigrantes sírios, iraquianos e afegãos na Europa. Um pouco de bom-senso não custa nada pessoas!

O sentimento anti-sistema não é sequer uma novidade. É certo que o UKIP elegeu apenas um deputado nas últimas legislativas de Maio de 2015, mas no voto nacional surgiu como a terceira maior força com 12.6% dos votos. É aliás esse o elemento que tantos comentadores e analistas ignoraram nas suas previsões do referendo ao BREXIT. O voto no UKIP mostrava já descontentamento, mas a arrogância do "sistema" não quis tirar ilações e lá veio "surpresa"...

As eleições na Polónia, em Outubro de 2015, e que resultaram no tal eixo democrático iliberal entre Varsóvia e Budapeste também davam sinais de que havia mudança no ar. E os bons resultados da direita populista na Finlândia, na Suécia, na Dinamarca e na Alemanha (as últimas eleições em Berlim mostraram isso mesmo!) também davam a entender que ou o sistema se reforma, ou o eleitor elegerá quem promete demolir o sistema. Reformar ou implodir!

Para os mais argutos, até os eventos no Brasil com o impeachment de Dilma Rousseff podem ser entendidos como um sinal curioso. Somando a isto, a eleição de Duterte nas Filipinas e as transformações políticas na China comunista e na Turquia pós-golpe; eventos que criaram o cenário político internacional propício ao discurso de Trump. Não ignoro que Trump se apoiou no medo e nas fobias da população, mas que falou também sobre problemas com os quais o eleitor se identificou.

Hillary Clinton sobrestimou a agenda vaginista (desculpem-me a linguagem!) que queria colocar uma mulher, apenas por ser a Primeira Mulher Presidente nos EUA (porque por esse mundo fora, temos tantos exemplos de mulheres no poder!). Não me entenda mal o leitor, acho que as mulheres são tão talentosas quanto os homens em qualquer função, mas não acho que a ênfase nos órgãos genitais seja razão para eleger pessoa A ou B. Clinton não percebeu que a mesma agenda falhara na ONU...

Quem também falhou e muito (e de propósito!) foram as sondagens. Todas as sondagens davam Clinton como 45ª Presidente dos EUA e no final todas elas falharam. O eleitor bofeteou as sondagens e, tenho para mim, deu cartão vermelho ao (quase-inexistente!) legado Obama. Porque no final do dia as altas promessas de Barack Obama ficaram maioritariamente por cumprir. Pergunto-me se a Academia Sueca aceitará a devolução do Nobel entregue em 2009...

O mais curioso de tudo foram as reacções pós-voto, que me fizeram lembrar a azia da direita "pafista" em Portugal, no final das última legislativas. Em Portugal quiseram deturpar o sistema transformando a noção de "quem tem maioria" na noção de "quem chega primeiro". Peço imensas desculpas se ofendo alguém mas é mais idiota e burro quem acha que o eleitorado é burro e idiota só porque o eleitorado não confirmou uma certa visão de mundo.

Em Democracia não temos que gostar do resultado pós-eleitoral, mas temos que o respeitar. Pedidos de repetição do escrutínio, de limitação do direito ao voto e outras tantas parvoíces são apenas um atestado de ignorância a quem os faz. E se o sistema eleitoral nos EUA é injusto, e tenho em crer que será esse o caso, a sua reformulação terá que ser feita a montante do ciclo eleitoral e não a jusante deste. Mudar as regras agora seria imoral, pouco ético e simplesmente cretino.

Igualmente desnecessário é o discurso do apocalipse e do fim do mundo. Parem lá com essas tontices das datas e das efemérides forçadas. No final do dia Trump, como qualquer outro Presidente, terá uma série de limitações constitucionais ao seu poder e dependerá (em larga escala!) da sua equipa governativa. E, para os mais distraídos, Trump foi apenas eleito Presidente nos e dos EUA...

(Amanhã, se for preciso, escreverei sobre o impacto pós-eleitoral de Trump, mas sem alarmismos e catastrofismos bacocos)

Monday, October 24, 2016

De como medir progressos sem contar os segundos...

Tornou-se rotina. Dia sim, dia não calço as sapatilhas, visto as calças desportivas e escolho uma das t-shirts oferecidas pela Inês para o propósito em causa. Coloco os auriculares e escolho a pasta "Running" e lá saio para a rua. Começo sempre com uma pequena caminhada pela colónia onde resido e depois lá me lanço na corrida.

Corro. Pausa. Ando. Corro de novo. Nova pausa. Nova caminhada. Um ciclo que se repete, agora, quatro vezes e que me permite, agora, correr mais de sete minutos, quando em meados de Agosto nem minuto e meio fazia. Não escondo o orgulho que sinto do progresso feito. E assumo que por vezes corro apenas porque penso nisso: como tenho progredido.

Desde que comecei a minha rotina que os guardas, que asseguram a tranquilidade e segurança da colónia, se têm mostrado curiosos. Assumo que deva ser curioso, se não mesmo engraçado, ver um académico estrangeiro a arfar no final da sua corrida; deve ter a sua piada ver um doutor a escorrer suor pelo rosto e com os óculos, por vezes, embaciados.

Eles, os guardas que nos guardam na colónia, refastelam-se nas cadeiras espalhadas no exterior, algumas com aspecto de virem da era colonial, enquanto eu me "torturo" a correr voltinhas em redor da residência ao som de música ora inglesa, ora portuguesa, ora russa, ora espanhola, ora turca, ora francesa e, de quando em vez, até música paquistanesa.

Confesso que ao início tal visão me causava algum desconforto, mas aos poucos notei que não havia no olhar dos guardas jocosidade mas antes curiosidade. Confesso que ao início apetecia-me dizer-lhes que eles, com estômagos a crescer de semana para semana, deviam andar a correr, mas noto agora que não o fazem porque não têm porque o fazer. Porque se cansariam se recebem o mesmo sentadinhos na cadeira almofadada?

E vou correndo. Deixo sempre que a música me preencha os sentidos para não pensar nestas coisas. O que importa é cumprir as metas auto-impostas. E deixar que o resto seja o resto. E lá vou correndo e parando. E no dia seguinte fico pelo quarto, com o número nove gravado na porta. E no dia depois do dia seguinte volto a correr.

Hoje numa dessas pausas, na terceira de quatro que fiz, a rotina quebrou-se. Quando parei, arfando e transpirando em bica, o guarda que vigia as traseiras da residência levantou-se, fez um respeitoso mas atabalhoado sinal de continência (filho de militar sabe destas coisas!) e apontou para a cadeira dele. Ou para as cadeiras: duas! Iguais. Uma para ele e uma para mim. Acedi ao convite, que as pernas pediam descanso.

Num instante percebemos que ele falava tão pouco inglês quanto eu falo urdu, mas isso não impediu a comunicação. Lá lhe perguntei como estava (Aap kaise hain?) a que ele respondeu: "Bem" (Good!). Apontei para o crachá para perguntar o nome dele. Hussain. A idade foi mais complicado, mas lá percebi que tem 36 anos. E do nada saiu-lhe um You very good man (Você, é um homem muito bom) com aquele sotaque típico dos falantes de urdu.

Sorri. Agradeci o cumprimento com um Shukriya (Obrigado). Estendi-lhe a mão para um aperto de mão e fui saudado por um aperto de mão e nova vénia. E depois ele gesticulou para explicar que sabia que só me voltaria a ver na quarta-feira e que eu teria a cadeira em espera. Agradeci de novo, desta feita em português, que o cansaço por vezes prega as suas partidas.

E segui para o quarto. Onde ainda sorrio. Tenho corrido sem querer chegar a qualquer destino, sem querer ir a parte alguma e contudo cheguei aqui: à atenção de quem me vigia. Tenho corrido para mim e por mim, sem perceber que corro também por ele, ou por eles. Tenho corrido para transformar o corpo, mas acabei por transformar o espaço. E na quarta-feira voltarei a calçar as sapatilhas...


Monday, October 17, 2016

São trinta e dois anos ou celebrando A Catarina

Já andavas pelos trintas anos quando, este ano, entrei no comboio. E, como sempre, a partir de hoje levas dois números de avanço... Até ao próximo 28 de Julho em que recupero a desvantagem, que logo aumentará no próximo 17 de Outubro. Ciclo que não me importo de repetir ad eternum...

Não é o primeiro aniversário que escrevo de longe. É o quarto. Seguido. Dois na Turquia. E dois no Paquistão. Já antes tivera aniversários em que estava em Lisboa, mas logo seguia para Abrantes para te dar aquele beijinho de parabéns. Mas estando longe-longe posso apenas tirar contentamento de escrever umas linhas, enquanto lágrimas marotas escapam-me dos olhos...

São trinta e dois anos que celebram as idas à arvore de natal, para saquear o chocolate pendurado nos ramos verdes do pinheiro e encher as pratas com areia.  De como corávamos quando o Natal terminava e na altura de "dividir" o chocolate acabávamos, literalmente, com um punhado de areia nas mãos. E, de quando em vez, com um castigo.

São trinta e dois anos que celebram os raides para espreitar presentes e depois, na noite de 24 para 25 de Dezembro, fingir espanto e surpresa com o que saía dos embrulhos. São trinta e dois anos que celebram horas a fazer de contas que trabalhávamos em empresas e andávamos em viagens por todo o lado. Nisso a realidade acabou por imitar a nossa imaginação e lá vou viajando aqui e ali!

São trinta e dois anos que celebram horas de maternidade-fraternal inculdada em ti pela vida e pelas circunstâncias; e nunca falhaste nesses deveres que tinhas que cumprir e para os quais não ouve tempo para aulas ou treinos. São trinta e dois anos que celebram ralhetes, raspanetes, risadas, gargalhadas e até bifes voadores...

São trinta e dois anos que celebram a menina sonhadora que se transformou na mulher trabalhadora. Ainda com o brilho dos sonhos nesses olhos cor de amêndoa, encaixilhados pela tez branca e pelo cabelo ora mais ruivo, ora mais loiro, ora mais moreno. São trinta e dois anos de muita coisa vivida que não caberá nestas palavras e que não deve caber. Há coisas que pertencem ao silêncio.

São trinta anos (e não, não me enganei!) de admiração, de fascínio, de amor. De olhar para um modelo a seguir no que toca a preserverança, elegância e espírito de luta. Muitas vezes me perguntam como é que aguento fazer tanta coisa e tantas vezes gostava de poder responder: isso é o meu lado Catarina. Não iriam entender, eu sei, mas gostava de responder isso.

São trinta anos (continuo sem estar errado!) a roubar pedacinhos de ti, que tento colar em mim de modo atabalhoado. Se há coisa complicada de se copiar, ser Catarina é certamente uma delas. Acabamos sempre por fazer algo torpe, insuficiente, desvirtuado, sem graça... E por isso quando te copio, assumo logo a qualidade fraquinha da cópia. Mas hoje celebro o original. Não celebro ser Catarina, celebro A Catarina.

São trinta e dois anos que hoje se celebram e num pulinho serão trinta e três e quem sabe interromperei este ciclo de celebrações longe. Quem sabe se não estarei por perto, pronto a cantar os parabéns e dar-te o beijinho na bochecha... e, porque não, desafiar-te para rapinar mais pratas numa qualquer árvore de natal por perto. MUITOS PARABÉNS!